Monumento ao Horizonte

por Julia Lima, 2016

Obra pública
Caminho Niemeyer – Niterói

A natureza humana é paradoxal: somos seres com impulsos nômades e também sedentários. No princípio, o homem estava sempre em movimento: deslocar-se, não permanecer em um lugar fixo, foi essencial à evolução. A agricultura, no entanto, permitiu que os núcleos se fixassem em determinados espaços, cultivando a terra e criando raízes. Apesar da estabilidade imóvel dessas comunidades, ainda havia uma pulsão exploradora, concretizada, por exemplo, nas navegações. Queriam ir mais longe, cada vez mais. Viajavam para descobrir novos territórios, dominar outros povos, ampliar impérios, ávidos por encontrar outros horizontes.

Em meados do século XVII, Maurício de Nassau trouxe ao Brasil os artistas holandeses Albert Eckhout e Frans Post, que, com um olhar naturalista, registraram paisagens, flora, fauna e tipos humanos. Em 1816, Jean Baptiste Debret, Nicolas-Antoine Taunay e mais dezoito artistas das mais variadas especialidades desembarcaram no Rio de Janeiro para registrar as belezas naturais, os tipos sociais e também revolucionar o ensino das artes no país. Debret escreveu sobre a chegada no Brasil:

‘Animados todos por um zelo idêntico e com o entusiasmo dos sábios viajantes que já não temem mais, hoje em dia, enfrentar os azares de uma longa e ainda, muita vezes, perigosa navegação, deixamos a França, nossa pátria comum, para ir estudar uma natureza inédita.’

Sabe-se que a vinda da Missão Francesa teve mais efeitos do que os romanticamente desejados por Taunay – os artistas franceses não apenas vieram como instrumentos de registro e documentação, mas também para estabelecer um novo ensino acadêmico de artes no Brasil, e disseminar o estilo neoclássico em detrimento do barroco, já tão desenvolvido. A Missão, ou invasão, não se contentava em apenas visitar um mundo novo, mas buscava, de alguma forma, imprimir no país marcas profundas da presença dos franceses: uma colonização cultural por meio de políticas públicas de ensino de arte e de um sistema profissionalizante nunca antes visto, responsável inclusive pela formação de artistas-ícones-nacionais como Pedro Américo e Almeida Júnior.

No entanto, com a modernização e industrialização do mundo, ficava cada vez mais fácil ir a e conhecer outros lugares – fosse pelo advento de novos meios de transporte, fosse pela invenção da fotografia. No século XX, o artista-viajante já não era mais requisitado para registrar e documentar sítios desconhecidos: o fotógrafo passou a ocupar esta posição. Assim, com a arte contemporânea, o olhar exclusivamente colonizador não é mais imprescindível para o desenvolvimento de uma visão estética sobre um lugar; lançamo-nos nós mesmos a navegar, invadir e ressignificar o além-mar, nos descolonizando e nos apropriando de nossa própria pulsão navegante.

Esse interesse que permeia , de uma forma ou de outra, a produção de alguns dos artistas contemporâneos não se limita a habitar as práticas do deslocamento real, físico. “Monumento ao Horizonte”, de Felippe Moraes, é um desdobramento de um trabalho de Moraes criado em 2010, intitulado “A Distância do Horizonte”, que consiste em uma fórmula matemática desenvolvida pelo artista para calcular a distância entre o olho do observador até o seu horizonte. O método é completamente singular: é a altura dos olhos que determina quão longe nossa mirada pode alcançar.

O “Monumento” é uma escultura pública criada para ocupar permanentemente o píer do Caminho Niemeyer, em Niterói. Se naquela pesquisa anterior a medida variava de acordo com cada pessoa que utilizasse a fórmula, neste projeto é o próprio objeto que estabelece a elevação da visão e designa a exata medida da visão: da pequena fenda horizontal que se abre na estrutura a quase 4 metros do piso é possível enxergar mais de 7km à frente.

A peça rompe brutalmente o espaço de contemplação do píer – pesando mais de uma tonelada, é feita de aço corten, material que evoca os cascos de navios e embarcações modernas que, com a maresia, oxidam e ganham uma tonalidade ocre. Seu acabamento já riscado e marcado denota a ação de um tempo que ainda não passou, sugerindo sua existência no mundo desde muito antes de sua instalação. Este proto-mirante está voltado para o oeste, como se fosse a agulha de uma bússola poente, e nada mais poético do que construir um aparato que desafia o tempo cronológico apontando sempre para o anoitecer (afinal, é no Rio que inventaram o aplauso ao pôr do sol).

De forma alongada, quando visto de frente seu aspecto oscila entre o totem e o monólito: pode ser visto como um objeto cuja presença é ancestral, ou então como elemento natural; algo construído por uma civilização antiga ou matéria orgânica que brota da própria terra, irrompida do chão. Por outro lado, também parece erguer-se como lugar artificial criado fora de nosso tempo, como se trazido para o passado-presente para suscitar o porvir e nos fazer encarar o futuro – em cada esfera distinta de apreensão da obra ativamos diferentes modos de ser, estar e se perceber no mundo.

Ao subir os degraus que levam até o visor do monumento, deparamo-nos com outra dimensão – os sons da presença do corpo ecoam e ampliam-se dentro das paredes de aço, ao mesmo tempo que o barulho externo é silenciado, abafado. Esse silêncio é cúmplice do ímpeto contemplativo suscitado pelo encontro com a paisagem da Baía de Guanabara que pode ser vista de dentro da edificação, emoldurada pela janela de metal. O posicionamento da fresta provoca uma sensação de flutuação e dispersão, ao dar a ver o horizonte, mas não o chão, como se estivéssemos na torre de um submarino parcialmente submerso.

Essa constituição quase náutica parece pronta a navegar, mas queda-se estanque. Como obra pública, não tem função ou utilidade prática, serve para nada e a ninguém. Sincronicamente, configura-se como uma arquitetura da espera – o píer onde se encontra nunca recebia embarcações. Daqui, agora, saem as navegações do olhar do público que ativa a obra, e o monumento pode ser abrigo para quem chega e, principalmente, uma espécie porto para quem quer partir.

Julia Lima
2016