A dimensão humana do mundo

por Fernanda Lopes, 2012

Exposição Individual “Construção”, 2011
Paço das Artes

O que está dentro, também está fora”.

(Goethe)

“O problema da apreensão do objeto pelos sentidos é o problema número um do conhecimento humano. A primeira aquisição científica, a primeira aquisição filosófica e a primeira aquisição estética estão reunidas de início no nosso poder de perceber as coisas pelos sentidos. O primeiro olhar do homem contém em si, em germe, todo o futuro de sua civilização. Em que consiste esta apreensão do objeto pela visão? Em distinguir lá fora uma dada estrutura. Tudo no mundo está aí para ser visto, ouvido, cheirado, tocado, sentido, percebido, enfim. Esta é a experiência imediata. Sobre ela o homem construiu os impérios, edificou seus monumentos, organizou a vida, elaborou a ciência, inventou as religiões com os seus deuses, criou a arte. Do ápice dessas realizações imensas, o homem tende a esquecer a célula, a base humilde de todas essas conquistas e maravilhas: a percepção”.1

Esse é um trecho do texto Da natureza afetiva da forma na obra de arte escrito pelo crítico de arte Mario Pedrosa como parte da tese apresentada por ele para o concurso de cátedra de História da Arte e Estética da Faculdade Nacional de Arquitetura, no Rio de Janeiro. Ali, Pedrosa se detém em uma análise sobre o que chama de “experiência primeira”. “No primeiro dia do nascimento as crianças já fazem uma distinção capital: percebem um ponto luminoso na escuridão. (…) E tudo se organiza com essa estrutura”, diz ele, reforçando que o primeiro olhar do homem, aquele movido pela curiosidade, pelo interesse pelo novo, contém em si, em germe, todo o futuro de sua civilização. O crítico também recorre à Goethe para reforçar a importância da relação do homem com o mundo: “Tende enfim coragem de vos abandonar às impressões, de vos deixar distrair, comover, exaltar, instruir, inflamar por alguma coisa de grande, e não penseis sempre que tudo será vão se não for algum pensamento ou ideia abstrata”.

É sobre essa relação do homem com o que está a sua volta que parece se debruçar a jovem produção de Felippe Moraes. Hoje vivemos em um mundo onde parece que cada vez mais é preciso se afastar dele para poder enxergá-lo melhor. Fotografias aéreas e programas de imagem como o GoogleMaps nos dão a ilusão de ter acesso absoluto do mundo. Hoje, os espaços são resultados de um conjunto de informações. Referências visuais transformam-se em números e coordenadas. Não há horizonte, perspectiva, limites ou centro. O olhar das máquinas vem construindo com o passar do tempo um mundo que cada vez menos nos reconhecemos como parte. Um mundo distante, no qual parece que somos incapazes de interferir.

Em Construção – exposição contemplada pela Temporada de Projetos 2011 do Paço das Artes – Felippe Moraes revela em seu conjunto de trabalhos a importância da proximidade, do contato, daquilo que está ao alcance direto das nossas mãos, dos nossos olhos e não mediado por máquinas ou câmeras. Suas obras querem chamar a atenção para a dimensão humana do mundo. O avanço tecnológico parece ampliar nossa dimensão de mundo, mas empobrece nossa relação com ele, agora mediada, vista através de filtros. Os grandes avanços do homem se deram no contato direto dele com o mundo, com o outro: a ciência por exemplo. Maravilhados com as novas possibilidades tecnológicas nos esquecemos que só chegamos a elas graças a nossa curiosidade pelo mundo, em contato direto com o mundo.2

Logo à primeira vista a mostra já se apresentava ao visitante como algo em processo – esse o grande mote de todas as obras apresentadas. No espaço expositivo, uma espécie de sala feita com tapumes, desses que se encontram pela cidade, sinalizando áreas que estão passando por obras. Aparadas por suportes de pinus, as paredes se mantêm de pé, formando ângulos acentuados e desconfortáveis ao corpo e aos olhos dos visitantes. Parecem já ali quererem recuperar o nosso olhar desconfiado, curioso para o mundo. E talvez por isso, os trabalhos reunidos na mostra também tivessem em comum a importância do tempo e da distância. Da importância em dedicar certo tempo para cada uma das obras em exposição e precisar encontrar a distância certa para vê-los melhor. É como a ideia de “construção” evocada pelo título da mostra. Construção é o ato ou o processo, individual ou coletivo, de construir. E é isso que parece interessar Felippe Moraes: não o que se constrói, o produto final, mas a ação.

No caso de π(2010), por exemplo, o tempo exigido do artista se revela na parede de cerca de sete metros de comprimento que ocupava. Nela, foram escritas manualmente, com canetas douradas, as cerca de 2800 primeiras casas decimais do número Pi. A superfície imponente, ia se revelando conforme o visitante se aproximava e se detinha nos números. O processo braçal, altamente mecânico, repetitivo e silencioso, incorporou falhas vindas justamente pela repetição e pelo uso da mão. A proporção das distâncias entre as linhas e entre os números não foi mantida em algumas áreas. Em outras, encontravam-se falhas na tinta que gravou o número sobre a parede. Nesse trabalho, Felippe Moraes se utiliza de uma proporção numérica que aponta ao mesmo tempo para toda a capacidade e toda a impotência da racionalidade humana. Afinal, existe algo mais preciso e ao mesmo tempo abstrato que um número com pelo menos 1.241.100.000.000 de casas decimais?3

Já nos três vídeos da série Encarnado (2010) apresentados na mostra, o tempo para se executar tarefas absolutamente prosaicas, comuns ao cotidiano de qualquer pessoa, de qualquer geração, em qualquer cidade do mundo, é estendido. Nesses trabalhos, subir escadas, trocar lâmpadas, andar por corredores e atravessar portas, levam um tempo muito além do normal, e por isso nos fazem duvidar que essas situações sejam tão simplórias quanto pensamos. Os vídeos nos revelam nuances desses processos, que passam desapercebidos no dia-a-dia. O mesmo acontece com O Concreto e o sutil, políptico de quatro serigrafias. O conjunto traz quadrados de diferentes tamanhos, cada um em uma serigrafia, posicionados de maneira diferente em cada uma das folhas. Mas é ao chegar perto e observar com mais atenção que vemos que as formas geométricas não são as únicas formas presentes nas serigrafias.

Entranha (2010) também traz uma operação curiosa, uma vez que leva o espectador a pensar em tudo o que não está dentro daquela sala de exposição. O rasgo aberto à força, com marteladas, no painel de drywall que serve de parede da exposição revela uma superfície dourada. Que superfície é aquela? Será que todas as paredes escondem essa outra superfície? Por que estava escondida? Quem escondeu? Há quanto tempo atrás? Essas são perguntas inevitáveis, que nos deslocam no tempo e no espaço. São também questionamentos que parecem interessar ao artista que levemos para a nossa própria vida, nos lembrando de duvidar do caráter de “naturalidade” que damos às coisas.

Assim, de alguma maneira, Felippe Moraes parece estar ligado à herança neoconcreta. Não tanto pelo desenvolvimento dos trabalhos, mas sim pelo diálogo com o pensamento que queria abrir mão da teoria limitadora em favor de uma experiência libertadora. “Não resta dúvida, entretanto, que, por trás de suas teorias que consagravam a objetividade da ciência e a precisão da mecânica, os verdadeiros artistas – como é o caso, por exemplo, de Mondrian ou Pevsner – construíam sua obra e, no corpo-a-corpo com a expressão, superaram, muitas vezes, os limites impostos pela teoria. Mas a obra desses artistas tem sido até hoje interpretada na base dos princípios teóricos, que essa obra mesma negou. Propomos uma reinterpretação do neoplasticismo, do construtivismo e dos demais movimentos afins, na base de suas conquistas de expressão e dando prevalência à obra sobre a teoria. Se pretendermos entender a pintura de Mondrian pelas suas teorias, seremos obrigados a escolher entre as duas”.4

Entre a arte como experiência prática, direta e aberta, e a arte como teorias e citações, Felippe Moraes prefere se dedicar à primeira. Eu também.

Fernanda Lopes
2012


1 PEDROSA, Mario. Da natureza afetiva da forma na obra de arte. [Tese apresentada para o concurso de cátedra de História da Arte e Estética da Faculdade Nacional de Arquitetura, Rio de Janeiro, 1949.] In: ARANTES, Otília (org.). Forma e percepção estética: textos escolhidos II – Mario Pedrosa. São Paulo: Edusp, 1995.

2 É a partir desse contato direto com o mundo que Felippe Moraes evoca a noção de religiosidade em alguns de seus trabalhos. Tanto em Malevich quanto em Felippe Moraes, quando se fala em espiritualidade, se fala na relação entre o Homem e o mundo externo. Ambos compartilham de uma crença na capacidade de ação e criação desse Homem, e por isso, na sua capacidade de interferir no mundo diretamente, sem a mediação de instituições, como a religião (um sistema de normas de conduta como tantos outros).

3 Esse é o número aproximado de casas contabilizadas até hoje, pois o PI é, até onde se sabe, infinito.

4 Manifesto Neoconcreto. Publicado originalmente no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, em 21 de março de 1959.

Originalmente publicado no catálogo da Temporada de Projetos 2011 do Paço das Artes, São Paulo.