O peso do intangível
por Sylvia Werneck, 2018
Babel Art Magazine
Felippe Moraes completa 10 anos de carreira. Nosso amor pelos números “redondos” dá à ocasião o status de marco, especialmente para um artista que faz uso dos mecanismos da matemática para investigar nossa condição humana – o que nos move, o que nos paralisa. Na numerologia, este número 10 torna-se 1 + 0 = 1. O significado do 1 é a unidade, o todo e, também, um recomeço. Ainda que não pensemos misticamente, todas as culturas tendem a considerar determinados cursos de tempo como momentos oportunos para fazer um balanço do passado e escolher quais novos caminhos iremos seguir.
Todo marco tem ares de fim, ao menos de fim de um ciclo, e convida à retrospectiva. Olhar para os dez anos de trabalho de Felippe Moraes de trás para a frente faz muito sentido, considerando sua maneira de criar. Os “objetos” que vemos em suas exposições e que chamamos de obras de arte são, na verdade, apenas a materialização do resultado final de todo um processo que aconteceu bem antes – cada obra é quase um resíduo, um vestígio. E é a partir daí que vamos seguindo os indícios deixados pelo caminho, até que possamos chegar de volta ao começo, à gênese da ideia.
O reino das impossibilidades
O que nos leva a sair da cama de manhã? O que estamos fazendo aqui? Estas são perguntas que fazemos a nós mesmos com maior ou menor frequência. “Penso, logo existo.” Dizem que a frase original de Descartes era, na verdade, “Duvido, logo penso, logo sou”. Duvidar, ou seja, questionar, é característico da natureza humana, independente de cultura, criação ou condição social. É também um exercício contínuo – cada pergunta respondida leva a mais desafios, mais dúvidas, mais razões para seguir, sempre na expectativa de que algum dia chegaremos a algum lugar – onde quer que seja.
Apesar de jovem, Felippe Moraes é extremamente prolífico, tendo produzido um conjunto considerável de trabalhos nos mais variados meios e técnicas. Em comum, é evidente o esmero na execução, a preocupação com cada detalhe e acabamento. Conceitualmente, interessam ao artista assuntos que circundam a condição humana – aquela incansável busca por algo que não sabemos nomear. Ele mesmo afirma que é atraído “pelo que o ultrapassa”, pelo desejo de apreender o inapreensível. Sim, o sublime está subjacente, respirando e pulsando por baixo de cada trabalho deste pensador inquieto, que busca, através da arte, fazer filosofia. Não é à toa que esclarece, sem qualquer hesitação, que o que menos lhe interessa saber é sobre arte em si – esta é meio, não fim. Seus trabalhos são vestígios e a obra existe desde muito antes como pensamento, como pergunta, como desejo.
Sempre um pouco mais além
“A Distância do Horizonte” (2009–2010) é um trabalho paradigmático do cerne da pesquisa de Felippe – lida com o movimento contínuo em direção a algum lugar. Consiste numa fórmula desenvolvida em cooperação com um matemático para calcular a distância em quilômetros entre qualquer pessoa e o horizonte. A resposta a esta curiosidade poética pode ser encontrada aplicando-se a seguinte fórmula às medidas do indivíduo:
ht = altura total (em metros)
ho = distância entre o centro dos olhos e o topo da cabeça (em metros)
Dado que cada pessoa é diferente, a distância até o horizonte é, portanto, diferente para cada um, mas a impossibilidade de alcançá-lo é a mesma para todos. Não importa o quanto nos movemos, a distância permanece a mesma: nossa “busca pelo pote de ouro no fim do arco-íris” está fadada ao fracasso. Ainda assim, mesmo cientes desta impossibilidade, insistimos.
Felippe se interessa pelas grandes perguntas, aquelas que dizem respeito à humanidade como um todo e cujas respostas são tão desejadas quanto inalcançáveis. Talvez por isso tenha como método apoiar seus questionamentos em algo universal, ou seja, na ciência, mais especificamente na matemática. Sua abordagem da mesma, entretanto, é bastante peculiar. Fomos dogmaticamente ensinados a respeitar esta que era tida como a mais nobre das ciências na Grécia antiga como um conhecimento absoluto, inquestionável. A perturbação que o artista joga em cena é a de que a matemática também não deixa de ser uma linguagem – tautologicamente, suas leis se aplicam a problemas que foram adequados à lógica do universo da própria matemática. Esta arbitrariedade é explicitada, por exemplo, em “Divisão” (2011), onde uma tora de madeira é seccionada de diferentes maneiras para ilustrar a operação, mas deixando claro que determinada “solução” foi privilegiada em detrimento de outras igualmente aplicáveis.
A cada trabalho, refunda-se a procura por uma definição que não é definível, usando-se uma ciência que, ainda que dê respostas às perguntas formuladas, não lhe chega ao âmago, uma vez que este está sempre, assim como o horizonte, um pouco mais além – o sublime que sempre nos escapa. “Verbo” (2009–2010) é uma tentativa frustrada de analisar matematicamente uma proposta teológica: durante sete meses o artista se debruçou sobre uma bíblia católica para recortar todas as palavras “Deus” do texto. Chegou ao número de 5.101 menções, que foram classificadas por tipografia (itálico, negrito, caixa alta etc.). No desdobramento deste trabalho, “O peso do verbo” (2010–2014), as palavras recortadas foram pesadas, totalizando 15 g. A instalação contém, além da balança, 72 vidros com materiais condutores de eletricidade com este exato peso.
Um ponto (para usar um conceito matemático) comum a todo o corpo da obra de Felippe Moraes é a preocupação com o que seja estritamente necessário na composição. O vestígio material que é apresentado – a pista que pede um percorrer de caminho até a ideia fundadora – é tratado com o cuidado de não lhe permitir ser mais importante que todo o processo que tornou possível sua existência. Por se tratar de pensamentos que não se isolam, mas tecem conexões com outras ideias, não é incomum que os projetos do artista se desdobrem, sempre um pouco mais além.
É o caso da continuação da busca pelo horizonte, executada em 2016, no Caminho Niemeyer, no Rio de Janeiro. Trata-se do “Monumento ao Horizonte”, uma estrutura de aço que lembra a proa de um navio, mas aberta na parte de trás. Há aí uma escada interna em cujo patamar foi cortada uma fenda horizontal, delimitando uma paisagem fixa da Baía de Guanabara. Neste caso, o horizonte oferecido é, a um só tempo, arbitrário, pois é o mesmo para qualquer pessoa, e democrático, pois é o mesmo para qualquer pessoa. O intervalo de tempo entre os dois trabalhos e o direcionamento de cada um deles diz algo sobre a trajetória do próprio artista. Felippe Moraes completa 30 anos de vida em 2018, chegando, assim como sua produção, a um marco. Ainda que se possa antever que seu espírito investigativo dificilmente mudará, pois tal apetite é da natureza de todo artista, é possível que algumas mudanças se insinuem; não na potência de seu discurso, mas talvez em sua própria maneira de lidar com o processo do trabalho, com mais espaço para o acaso, como já aconteceu recentemente em alguns projetos. O amadurecimento conduz, com frequência, a uma abordagem mais serena das paixões. E coisas incríveis podem acontecer.
Sylvia Werneck
2018
Originalmente publicado em Babel Art Magazine – Edição 10 – 2018