
Imensurável, 2018
Exposição Individual
CAIXA Cultural Fortaleza
Curadoria de Alexandre Sá
Fortaleza – Brasil










A exposição Imensurável, de Felippe Moraes, apresentada na CAIXA Cultural Fortaleza, reúne cerca de 40 obras produzidas entre 2009 e 2018, configurando um panorama consistente de sua pesquisa. Com curadoria de Alexandre Sá, a mostra articula diferentes linguagens como escultura, instalação, fotografia e som para investigar a relação entre matéria, linguagem e transcendência.
O conjunto propõe uma reflexão sobre os limites daquilo que pode ser medido e compreendido. Ao tensionar conceitos oriundos da matemática, da geometria e da ciência, o artista questiona sistemas considerados estáveis e revela a existência de dimensões sutis que escapam à lógica objetiva. A exposição desloca o olhar do visível para aquilo que opera de maneira invisível, porém determinante.
Ao integrar tecnologia, experiência sensorial e pensamento filosófico, Imensurável constrói um campo onde o público é convidado a reconsiderar sua posição no mundo. A matéria deixa de ser apenas suporte e passa a ser atravessada por forças simbólicas, espirituais e perceptivas que expandem o entendimento da realidade.
A exposição reúne alguns dos trabalhos mais emblemáticos da trajetória de Felippe Moraes, como Movimento Pendular (2014), Verbo (2009-10), O Peso do Verbo (2014) e The Drag That Said Phi (2017), evidenciando a consistência de uma pesquisa que atravessa linguagem, matéria e pensamento. Essas obras condensam investigações centrais do artista ao articular fenômenos invisíveis, estruturas simbólicas e tensões entre o mensurável e o indizível, configurando um conjunto que revela tanto a diversidade de meios quanto a unidade conceitual de sua produção.
Textos curatoriais
IMENSURÁVEL – Felippe Moraes
Na ocasião da minha primeira exposição coletiva em 2009, com a qual marco o início de minha carreira como artista, o curador perguntava como mote da mostra: “O que te move?”1 Minha réplica imediata foi “tudo o que nos ultrapassa”. Essa resposta inscrita na parede, aberta e ambiciosa, parecia não só assentar meu pensamento como artista, que já vinha se desenvolvendo há muito tempo, mas tornar-se um norte determinante para tudo que viria a seguir.
Em “Imensurável” – uma tentativa de traçar um panorama da minha obra até o momento, em direção a uma reflexão sobre os meus dez primeiros anos de trabalho –, esse entendimento parece ainda profundamente verdadeiro e revelador. Dessa maneira, a obra propõe um habitar conceitual daquilo que ultrapassa os limites da compreensão, que esvazia nosso vocabulário emocional e intelectual, que nos impõe, pela brutalidade tanto quanto pelo silêncio, uma reflexão sobre o nosso lugar e tamanho no mundo e no universo, encaminhando-nos a uma compreensão de nossa existência que se aproxima do sublime.
Como artista, nunca me senti um artífice ou um ente que produz. Entretanto, tampouco experimentei o temor contemporâneo de chamar-me de artista. Sempre percebi minha prática como um revelar, mais do que um fazer. Compreendo e empreendo a arte como uma forma de pensar, investigar e criar em métodos, promessas e resultados que diferem daqueles da ciência, da filosofia ou da espiritualidade, mas que constantemente recorre a elas para ampliá-las, discuti-las e até negá-las, habitando os vazios deixados por elas.
A arte talvez seja como a matéria escura que permeia o universo, apesar de ainda absolutamente incompreendida pela ciência. Sabemos de sua existência, mas pouco sobre sua natureza. É invisível, imperceptível e essencial para dar conta dos modelos conceituais desenvolvidos até agora. Minha prática está constantemente nesse entre. Não reside em disciplinas únicas, mas no vazio entre elas.
O trabalho do artista é, portanto, um legado. É a possibilidade de um pensamento que não é comportado por nenhuma outra área de conhecimento humano e que é revelador na inconsequência de seus métodos e na demonstração de suas falências e limitações. Não há medo do vazio. Em um momento histórico em que nossos modelos filosóficos, políticos e científicos parecem ter encontrado os limites de seus próprios alcances, procedimentos e ambições, a arte não se abstém do confronto e do diálogo com o desconhecido. Ao contrário, habita-o com entusiasmo.
Assim sendo, meu trabalho é uma celebração da experiência do tangível e de como essa vivência, e somente ela, pode promover uma apreensão do intangível e do imaterial com tamanha eloquência retórica e poética. Trata-se de uma revelação que se dá pela ausência, pelas reticências, pelo espaço entre caracteres epistemológicos e pela contemplação daquilo que é infinito, invisível, oculto, que se esconde atrás do horizonte e que é, por fim, imensurável.
Felippe Moraes
1 DELLACQUA, W. Sem Crise ou Os 4 Opositores, 2009. Disponível em <http://os4opositores.blogspot.pt/2009/04/da-curadoria.html>. Acesso em: 25 abr. 2018.