



Felippe Moraes
Movimento Pendular #1, 2014
Cabo de aço, vidro e areia
Dimensões variáveis

Movimento Pendular #1 e #2 (2014), de Felippe Moraes, investigam como fenômenos físicos podem produzir imagens diretamente no espaço.
A obra consiste em um dispositivo pendular suspenso acima do chão. Um recipiente contendo areia é colocado em movimento e libera lentamente o material durante sua oscilação. À medida que se desloca, o pêndulo deposita um traço contínuo que registra no chão a trajetória percorrida.
O desenho não é previamente planejado. Ele surge do próprio comportamento do sistema físico: pequenas variações na amplitude, na direção do movimento e nas condições do ambiente modificam continuamente o padrão gerado. Cada ativação da obra resulta, assim, em uma imagem singular.
O trabalho transforma o movimento em forma visível.
Entre as duas versões do trabalho, uma diferença material sutil estabelece um contraste visual decisivo. Movimento Pendular #1 utiliza areia branca, enquanto Movimento Pendular #2 é realizado com areia preta. A alteração cromática modifica a percepção do desenho formado pelo pêndulo: no primeiro caso, a linha surge luminosa sobre o chão; no segundo, torna-se mais densa e gráfica, enfatizando o contraste e a fisicalidade do traço.
Ao registrar o deslocamento do pêndulo, a areia funciona como um meio de inscrição do movimento no espaço.
Cada linha corresponde à passagem do dispositivo em um determinado instante. O desenho resultante acumula essas trajetórias sucessivas, revelando padrões de repetição, variação e equilíbrio.
Embora governadas por leis físicas simples, as imagens produzidas apresentam uma grande diversidade formal. Pequenas mudanças nas condições do sistema alteram progressivamente o desenho, fazendo com que nenhuma configuração se repita exatamente da mesma maneira.

Movimento Pendular #1 (2014) na exposição individual Ordem (2014) na Baró Galeria (SP).

Curvas de Lissajous
As imagens produzidas pelo dispositivo pertencem a uma família de padrões matemáticos conhecidos como curvas de Lissajous.
Essas figuras surgem quando movimentos oscilatórios se combinam em direções diferentes. Dependendo da relação entre suas frequências e amplitudes, o resultado pode variar entre elipses simples e complexas redes de curvas entrelaçadas.
Na instalação, essas relações matemáticas deixam de existir apenas como modelo teórico e passam a se manifestar materialmente. O movimento do pêndulo converte diretamente essas relações em linhas de areia depositadas no chão.
O sistema funciona, portanto, como um instrumento capaz de tornar visíveis estruturas geométricas que normalmente permanecem abstratas.
O mesmo processo ocorre na série de fotografias Movimento Pendular (2015-17) onde o artista descreve as mesmas figuras com luz no sensor da câmera.
As figuras produzidas pela instalação são extremamente frágeis. Correntes de ar, vibrações ou a circulação de pessoas no espaço fazem com que as linhas de areia se desloquem gradualmente.
Com o passar do tempo, os padrões começam a se desfazer, dissolvendo-se em novos arranjos.
Esse processo revela o caráter transitório das imagens geradas pelo trabalho. O desenho não é um objeto fixo, mas o vestígio temporário de um movimento em curso.
Assim, Movimento Pendular #1 e #2 apresentam o desenho não como representação, mas como consequência direta de um sistema físico em atividade.


A série Movimento Pendular baseia-se em princípios elementares da física: gravidade, inércia e oscilação. Uma vez colocado em movimento, o pêndulo tende a buscar continuamente um ponto de equilíbrio, enquanto pequenas variações no sistema produzem desvios progressivos em sua trajetória.
Essas variações transformam um mecanismo aparentemente simples em um gerador complexo de formas. A combinação entre forças físicas e deslocamentos mínimos cria padrões que se expandem gradualmente no espaço, organizando-se em estruturas curvas e interligadas.
Nesse sentido, a obra revela como sistemas naturais podem produzir geometrias sofisticadas a partir de regras básicas. O desenho que emerge não é imposto pelo artista, mas resulta da interação entre o dispositivo, a matéria e as condições do ambiente.
A instalação funciona, portanto, como um campo de observação onde processos invisíveis — gravidade, oscilação e equilíbrio — tornam-se perceptíveis através da formação das imagens.
Movimento Pendular #1 (2014) na exposição individual Imensurável (2018) na CAIXA Cultural Fortaleza.
Principais Exposições
- 2022 – 13 Bienal do Mercosul – Casa de Cultura Mário Quintana (Rio Grande do Sul, Brasil)
- 2018 – Imensurável – CAIXA Cultural Fortaleza (Ceará, Brasil)
- 2015 – TRIO Bienal – Paço Imperial (Rio de Janeiro, Brasil)
- 2014 – Prêmio EDP nas Artes – Instituto Tomie Ohtake (São Paulo, Brasil)
- 2014 – Ordem – Baró Galeria (São Paulo, Brasil)