Questões sem resposta, 2011

por Fernanda Lopes, 2011

Exposição Individual “Construção”, 2011
Paço das Artes

“Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado”

Construção (Chico Buarque)

Construção é o ato ou o processo, individual ou coletivo, de construir. E é isso que parece interessar Felippe Moraes: não o que se constrói, o produto final, mas a ação. Ou melhor, a possibilidade de agir, a escolha individual por agir, o livre-arbítrio de cada um. Na exposição Construção os trabalhos se valem de elementos comuns à construção civil, como prumos, plantas baixas, tapumes, cálculos e ferramentas, que a partir de sua disposição e das combinações que estabelecem entre si, vão assumindo novas configurações e significados. A canção homônima de Chico Buarque, escrita em 1971, também se vale dessa dinâmica. As mesmas palavras mudam de lugar constantemente ao longo da música fazendo com que a estrutura fixa ganhe novos contornos e significados a partir de pequenas mudanças de palavras.

Logo na chegada, o visitante é recebido por uma sala construída por tapumes magenta. Formando ângulos acentuados e desconfortáveis ao corpo e aos olhos, essas paredes precárias parecem não ficar de pé sozinhas, mantendo-se estáveis graças aos suportes de pinus. Parecem proteger ou preparar o espaço para o que já está por vir, isso sim, em caráter definitivo. Do lado de fora, estão projetados diretamente na madeira os três vídeos da série Encarnado (2010) em que uma pessoa, o próprio artista, trajando um macacão vermelho de operário, habita ambientes da mesma cor executando tarefas absolutamente prosaicas, mas igualmente simbólicas como subir escadas, trocar lâmpadas, andar por corredores, atravessar portas.

Do lado de dentro, estão trabalhos como π (2010). Aqui são escritas manualmente, diretamente sobre a parede com canetas douradas, as mais de mil primeiras casas decimais da constante matemática. Revela-se aqui um processo braçal, altamente mecânico, repetitivo e silencioso. Revela-se também uma proporção numérica que aponta ao mesmo tempo para toda a capacidade e toda a impotência da racionalidade humana. Pi é um número tão preciso que em 2002 chegou a 1.241.100.000.000 casas decimais de exatidão. Mas existe algo mais abstrato que um número com pelo menos 1.241.100.000.000 de casas decimais?

Há cerca de um ano, Felippe Moraes escreveu um texto, intitulado Olhar para o alto. Nele, começava contando que na ocasião de sua primeira exposição coletiva o curador perguntou: “O que te move?”. Depois de muito refletir, respondeu: “Tudo que nos ultrapassa”. Para o artista, daí em diante, essa afirmação provou-se mais verdadeira a cada dia no sentido de seu trabalho se articular sobre o eterno, sobre o intangível, ou seja, tudo aquilo que está além de nossa compreensão e que sequer sabemos nomear. Talvez por isso, a produção de Moraes traga consigo a ideia de religião em seu sentido primeiro: religar. Ao ver Construção, penso que o que move o artista é na verdade tudo o que em nós, em todos nós, é permanente. Seu objeto é tudo aquilo que nos constitui não como indivíduos, mas como humanidade. Uma humanidade que, ao olhar para o alto, na verdade, exercita o simples ato de olhar para dentro. Afinal, quem inventou institucionalização da espiritualidade e a necessidade dela?

Fernanda Lopes
Agosto 2011

Originalmente publicado no site da Temporada de Projetos 2011 do Paço das Artes, São Paulo.