Tudo é perigoso, tudo é divino e (ainda é) maravilhoso

por Victor Gorgulho, 2025

Solfejo – Exposição Individual
CAIXA Cultural Rio de Janeiro

ATENÇÃO PARA O REFRÃO! Informa-nos, logo na entrada do espaço, uma das esculturas em neon do artista Felippe Moraes (Rio de Janeiro, 1988), como uma espécie de alerta tão político quanto festivo. Referenciando o principal verso, talvez, da composição musical de Caetano Veloso, imortalizada na voz da cantora Gal Costa (1945-2022), o trecho de “Divino Maravilhoso” (1968), funciona como um rico prólogo a uma exposição que referencia o som, a música e a capacidade de resiliência e superação que vem junto desta – especialmente na experiência social brasileira – ao passo em que também nos conduz a esta conclusão através de enigmáticos silêncios, de sons abafados, de ímpetos sonoros não concluídos mas não menos retumbantes e potentes na forma como impactam o corpo daquele que visita a presente exposição.

Em sua primeira individual no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, no subúrbio carioca, Moraes apresenta uma visão panorâmica de sua produção dos últimos anos, passando pelas já mencionadas esculturas em neon até trabalhos ainda pouco exibidos no circuito da arte contemporânea brasileira – seja na esfera institucional, seja no âmbito das galerias e das feiras. Em seus vídeos, instalações, esculturas sonoras, visuais, fotografias e além, o artista revela uma prática multimídia que, à revelia de pares de sua geração, não busca justificar-se ou explicar-se por vias formais, acadêmicas, oblíquas e pouco acessíveis a maior parte do público que prestigiará sua mostra.

Como uma singular espécie de “artista-alquimista”, Moraes apresenta no corpo de sua obra – em uma completude inconclusa, contínua, uma vez que o artista segue a produzir, incessantemente – uma inesperada objetividade e pragmatismo da qual ela é radicalmente imbuída, contaminada. Se, por um lado, a “alquimia”, ou certo “misticismo”, crenças em sistemas epistemológicos que fogem às balizas do léxico contemporâneo ocidental aparecem nas obras aqui reunidas, são estes aspectos que o artista elege como campos de interesse em sua própria vida cotidiana. Não se trata de um paradoxo, no entanto: o tal “artista-alquimista” em nada aproveita-se da figura do artista romântico, cujos séculos atrás de si o tornam um ser meio paralisado, meio constantemente em estado de alerta e de medo.

Moraes opera, contudo, por vias inversas: se o trabalho de arte é um labor, o artista conjuga seu virtuosismo manual às suas frequentemente afiadas pesquisas conceituais e teóricas sobre temas que ocupam um amplo espectro não apenas de interesse dele, como de relevância para todos nós que, aqui reunidos, formamos (ainda que à revelia de muitos, um corpo-social da nossa Terra Brasilis), um inegável corpo-coletivo, corpo-sociedade, ainda dotado de um imaginário próprio e de inúmeras concordâncias, dissonâncias, disparidades, rupturas e alianças ademais.

À despeito de um desejo de a todos agradar, Moraes evoca o samba da sua cidade de nascença, convida o espectador a uma posição ativa diante de obras em que o som só se torna possível a partir da relação deste com sua obra, reflete tanto eruditamente sobre a experiência humana na mais tenra ideia de sua finitude neste planeta chamado Terra, como convida-nos a bailar em meio à outras possibilidades de encontros siderais. Tão distantes e tão próximos, feito bravamente alcançado por sua produção – ainda que, sempre, de um modo generoso, pouco ostensivo, como qualquer boa realização artística, possivelmente, deve (ou deveria) ser.


Victor Gorgulho
2025