Solfejo, 2025

Exposição Individual
Texto curatorial de Marc Pottier
CAIXA Cultural Curitiba
Curitiba – Brasil

A exposição Solfejo – Felippe Moraes, apresentada na CAIXA Cultural Curitiba entre 15 de julho e 21 de setembro de 2025, marca a primeira individual do artista no Paraná. A mostra reúne 38 obras que atravessam som, samba e cosmologia, propondo uma experiência imersiva e sensorial.

Com texto curatorial assinado por Marc Pottier, a exposição articula diferentes campos do conhecimento, conectando arte contemporânea, ciência e espiritualidade. Instalações interativas, néons, fotografias e vídeos criam um percurso em que o visitante é convocado a perceber fenômenos invisíveis que organizam o mundo.

A presença do samba surge como eixo afetivo e cultural, especialmente na série Samba Exaltação, que ativa a memória coletiva por meio de frases reconhecíveis do cancioneiro brasileiro. Ao mesmo tempo, trabalhos como Solaris Discotecum expandem essa escuta para uma dimensão cósmica, colocando o corpo em relação com ritmos universais.

Após passar por cidades como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, a exposição chega a Curitiba reafirmando seu caráter processual e expansivo. Mais do que uma reunião de obras, Solfejo se apresenta como um campo de experiências onde som, luz e pensamento se entrelaçam na tentativa de dar forma ao invisível.

Textos curatoriais

Solfejo – Felippe Moraes

Solfejo é um caminho.
Começou em 2019 no Centro Cultural FIESP, em um Brasil em turbulenta transformação. Um canto no escuro. Passou por Brasília, onde cresceu, e se assentou no Rio, minha cidade, onde vivem meus ancestrais — e onde cantam suas canções em meus ouvidos e batucam na sola dos meus pés. Aqui, se encontra com o Caminho do Peabiru, rota geográfica e ritualística dos antigos povos ancestrais sul-americanos, que rasga o território do Paraná. Onde caminhos se encontram, faz-se uma encruzilhada.

A encruza, assim como Solfejo, é um ponto de possibilidades infinitas. Uma pororoca de saberes, onde o visível acessa o invisível e o intangível se faz tangível. Os povos ancestrais que construíram esse caminho — que ligava o Atlântico ao Pacífico, do litoral de São Paulo a Machu Picchu — não compreendiam separações entre sujeito e objeto, mito e rito, transcendente e imanente. Arte e vida. Assim é Solfejo: a música dos astros reverbera nos corpos terrestres, e as canções que cantamos — e com as quais pulamos carnaval — ecoam no firmamento.

Nesta mostra, se permite ver o contínuo entre o desenho de um som e o sussurro da memória ao ler uma canção escrita. Um espaço poroso entre mundos. Onde podemos olhar para imagens que se dão fora para acessar o que está dentro. Cantamos com a lembrança e lembramos com as canções.

Solfejo é uma escola que ensina a vocalizar pelo silêncio e permite escutar a música que vibra na saudade, na cultura e no inconsciente coletivo. É sobre o timbre interno que reverbera no vazio. É vislumbrar nossas próprias canções — aquelas que reconhecemos, que sempre estiveram e sempre estarão. Pois é de música que somos feitos.

Felippe Moraes
2025