Solfejo
por Marc Pottier, 2025
Solfejo – Exposição Individual
CAIXA Cultural Curitiba
Felippe Moraes é um polímata: artista, pesquisador, curador, cenógrafo, autor… Ele também pertence a essa família carioca apaixonada por um Rio de Janeiro de mil sons. Seu estandarte, exposto na janela de seu ateliê em São Paulo e claramente legível da rua, é um letreiro vermelho de néon que diz “Quero viver no Carnaval”, parte de uma série que ele chama de SAMBA EXALTAÇÃO, (presente nessa exposição) criada durante a pandemia. É o espírito de um artista muito focado no público, que quer ver participar e que gosta de imergir em suas obras. Não é surpresa, portanto, que ele retorne com Solfejo à Caixa Cultural de Curitiba, na quarta versão de uma exposição criada pela primeira vez em 2019, no Centro Cultural FIESP em São Paulo.
Na filosofia e na música, Solfejo, termo derivado da palavra italiana Solfeggio, vem da junção dos nomes de duas notas musicais: Sol e Fá. Foi criado por um monge beneditino italiano do século XI, Guido D’Arezzo. Pode ser entendido como um sistema simbólico que estrutura e organiza a percepção e a compreensão do mundo sonoro. Representa uma linguagem universal da música, permitindo leitura, escrita e interpretação de partituras. Além de sua função técnica, a teoria musical pode ser vista como um método para desenvolver a “consciência sonora” e uma apreciação mais profunda da música. É essa experiência que Felippe propõe em sua exposição.
Essa nova exposição polifônica parece pensar-se e organizar-se com uma ordem muito precisa e determinada. É uma introdução que convida a entrar em um mundo complexo, por vezes interativo, no qual o pensamento será amplamente requisitado, e onde o público será levado a devaneios profundos.
Todas as obras desta exposição dialogam entre si em um contexto de arte total: de relação com o corpo, de aleatoriedade, de referências diversas que se entrecruzam física e mentalmente. O artista convida você a cantar junto com as imagens, com seus gestos e pensamentos, letreiros de néon, fotografias de desenhos sonoros (cada uma com o título de sua frequência, de 97 até 1228 hertz), instalações…
Felippe interpela seu público sem cessar com suas exclamações textuais — “Atenção para o refrão”, logo na entrada da exposição; “Não deixa o Samba morrer”; “Canta Forte/Alto” (esta última, criada em 2021 e instalada na fachada da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo, entoando a música de Martinho da Vila) … Esses textos-luz em néon — meio imprescindível da arte contemporânea, criado pelo químico francês Georges Claude (1870–1960), que transformou a imagem das cidades — se imiscuíram na arte para enriquecê-la e questioná-la. Os artistas exploraram as especificidades desse meio para expandir o campo do visual, criar emoções e provocar a reflexão do espectador. Eles optaram pela figuração ou pela linguagem, como na história da cultura humana — das cavernas de Lascaux aos hieróglifos. Felippe, por sua vez, utiliza seus néons-mensagens para dialogar com o público em cada trecho da exposição, como ecos que o convidam a avançar, descobrir mais de suas propostas e entender, com essa série, como o samba — um gênero musical brasileiro originado entre comunidades afro-brasileiras urbanas do Rio de Janeiro, no início do século XX — é um modo de viver. Felippe também escolheu néons para compor as constelações de Solaris Discotecum.
Solaris Discotecum (2023) é um modelo imersivo do universo, com um grandioso globo espelhado ao centro, girando lentamente entre as 12 constelações do zodíaco. É a forma que o artista encontrou para nos lembrar de nossa pequenez diante do universo. Mas, além disso, Felippe quer, sutilmente, convidar para a dança de sua exposição o pensamento do célebre astrônomo alemão Johannes Kepler (1571–1630) e sua hipótese heliocêntrica. Kepler afirmou que a Terra gira em torno do Sol — mas, sobretudo, que os planetas não giram em trajetórias circulares perfeitas, e sim elípticas. Na exposição, Felippe adota o pensamento da elipse: a complexidade de suas proposições artísticas força o público a preencher as lacunas (já que é impossível explicar toda a densidade de seu pensamento com textos nas paredes), para chegar ao essencial e ao choque estético de sua obra. Acima de tudo, o artista quer que o observador adivinhe as camadas dos universos que ele descreve em seu Solfejo.
Essa obra dialoga com o filme Harmonices Mundi (2017), outro tributo a Kepler e ao livro homônimo publicado em 1619. Nele, o astrônomo expressa, em termos musicais, suas convicções sobre as conexões entre o físico e o espiritual. Para Kepler, o universo é uma imagem de Deus; a harmonia da música reflete a do universo e de seu criador.
Toda a exposição Solfejo de Felippe Moraes é platônica. A música atravessa toda a obra de Platão. Está presente em toda parte e contribui para a construção do projeto de uma nova cidade. A República exerce esse papel especialmente: a história de Atenas perpassa os diálogos que moldam o projeto de uma cidade ideal, formulado em resposta às turbulências políticas. A cidade ideal é a personificação da harmonia — a mesma encontrada na natureza. Platão acreditava que a música exercia influência direta sobre a alma. Mas essa influência era estritamente dicotômica: boa ou má. Seu grande poder advinha da relação traçada pelos gregos entre música e astronomia. Segundo a teoria numérica de Pitágoras, a música era regida por leis matemáticas — assim como as esferas celestes. É justamente disso que Felippe fala em sua exposição: as mesmas proporções aritméticas estão presentes na música e na natureza, conferindo à primeira um certo poder sobre a alma — a ponto de os movimentos das estrelas serem considerados perfeitos. Para Felippe, como para Platão, a música deve estar necessariamente associada à fala (lógos) — neste caso, à fala poética. Quando a música serve à fala poética, ela desperta interesse. Aproxima-se, assim, do lógos, a ferramenta da filosofia. E é por meio dele que os filósofos iniciam os seres humanos nas Ideias.
Canto e encanto: para Felippe, vida e morte estão muito próximas. A música pode reencantar o mundo; é um convite para transformar a vida. O artista se interessa pelo canto mental, aquele que ativa nossas memórias musicais ligadas ao melhor de nossas experiências. Ele oferece seu Solfejo para nos encorajar a reinventar nossas próprias harmonias. Um convite à sobrevivência!
Marc Pottier
2025