Uma pausa de mil compassos

por Alexandre Sá, 2021

Projeto Samba Exaltação
Ed. Mirante do Vale

“Viver essa longa avenida de gás neon
Portas de ouro e prata
Falsos sonhos nessas noites de verão
Faces coloridas, farsas de alegria
Beijo sem sabor
Gestos clandestinos tontos e sedentos de amor

Espinhos, rosas, risos, pranto e tanto desamor
Corte, cicatrizes, gritos engasgados
Lágrimas de dor
Máscara no rosto, continua a festa
No sorriso o sal
A orquestra geme as dores do palhaço
Triste marginal

Ai de quem mergulhar nesse mar de veneno
Nessa lama enfeitada, nesse sangue das taças
Temendo sofrer
Ai de quem quer negar esse mar de veneno
Mil vezes maldito na inconsciência
Das vidas à margem há de ser”

Gonzaguinha

O neón foi descoberto no final do século XIX e com considerável velocidade tornou-se um emblema da modernidade, do progresso e das eventuais transformações sociais e urbanas pelas quais passaríamos nos anos seguintes. Se o seu surgimento e utilização são estruturais para o pensamento da cidade como imaginário em trânsito, não é raro nos depararmos com uma outra imagem de sua presença não menos imaginária: a solidão de sua luz falha ao piscar em uma vitrine vazia dentro de uma noite veloz.

Uma pausa de mil compassos é o segundo movimento de uma série de trabalhos em que Felippe Moraes destaca trechos afetivos de músicas e os coloca em suspensão na janela de seu apartamento próximo ao viaduto Santa Efigênia, no centro de São Paulo. Aqui, neste caso, o verso de Paulinho da Viola ganha novos timbres, talvez fantasmáticos, diante de uma pausa opressiva inevitável diante de um problema de saúde pública, aliado a falta de responsabilidade com o coletivo, permeado por uma abordagem necrófila.

A solidão ressurge agora potencializada na imbricada relação entre público e privado. Se por um lado, sair e existir o espaço do mundo é risco de morte, por outro, manter-se no mundo é sustentar o estar em si dialogando com o risco intransponível da intimidade devassada das telas. O liame entre eu e outrem, talvez como resultado de um atabalhoado processo de construção que insiste em desconsiderar seu passado, é esfacelado. O que resta é a saudade nostálgica de um tempo futuro. Em eterno porvir. A ser acendido e apagado. Como se numa parede invisível de uma caverna íntima em que a expressão pura do viver ainda urge.


Alexandre Sá
2021