Samba Exaltação
por Alexandre Sá, 2021
Samba Exaltação – Exposição Individual
MAC Niterói
“Não posso mais, ai que saudade do Brasil
Ai que vontade que eu tenho de voltar
Adeus América, essa terra é muito boa
Mas não posso ficar porque
O samba mandou me chamar”
(Geraldo Jacques/Haroldo Barbosa)
“Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa.”
Primo Levi
O neón foi descoberto no final do século XIX e com considerável velocidade tornou-se um emblema da modernidade, do progresso e das eventuais transformações sociais e urbanas pelas quais passaríamos nos anos seguintes. Se o seu surgimento e utilização são estruturais para o pensamento da cidade como imaginário em trânsito, não é raro nos depararmos com uma outra imagem de sua presença não menos imaginária: a solidão de sua luz falha ao piscar em uma vitrine vazia dentro de uma noite veloz.
Samba exaltação é uma série de trabalhos em que Felippe Moraes destaca trechos afetivos de músicas populares e os traz para a materialidade, como se propusesse uma relação imbricada entre visualidade e memória simbólica de tantas canções cravadas em nossa experiência ao longo do tempo. Tais trechos retirados em sua maioria de sambas conhecidos, fazem com que a malemolência do ritmo encontre na instabilidade do neón, um novo ritmo, assumidamente incerto e vívido, como um ato de resistência em tempos de devastação.
Importante destacar que inicialmente, tais trabalhos foram postos em suspensão na janela de seu apartamento próximo ao viaduto Santa Efigênia, no centro de São Paulo. E essa experiência originária do dentro e fora do seu infinito particular, provocou novos ritmos aos versos, talvez já fantasmáticos, diante de uma pausa opressiva inevitável de um problema de saúde pública, a covid-19, aliado a falta de responsabilidade com o coletivo, permeado por uma abordagem necrófila.
A solidão da clausura que atravessamos e que é, ainda em 2021, algo iminente, ressurgiu potencializada na imbricada relação entre público e privado. O nó entre eu e outrem, talvez como resultado de um atabalhoado processo de construção que insiste em desconsiderar seu passado, é esfacelado. O que resta é a saudade nostálgica de um tempo futuro. Em eterno porvir. A ser acendido e apagado. Como se numa parede invisível de uma caverna íntima em que a expressão pura do viver ainda urge.
Tal série ganha agora novos ares. Estamos em outro movimento que, embora não menos arriscado, guarda alguma ligeira segurança advinda da vacinação. As cidades ainda desestruturadas pelo trauma inevitável, começam uma tentativa de reaprenderem seus ritmos, seus pulsos e uma nova marcação de um compasso que ainda desconhecemos.
A segunda exposição individual de Felippe Moraes no MAC-Niterói, além de fazer parte de uma retomada deste museu, em toda a sua potência, para a cidade de Niterói, traduz uma mudança de ritmo em sua produção, reforçando elementos cotidianos, advindos do mundo das coisas e apostando num diálogo com o grande público, através do samba e de sua inevitável memória corporal. A cadência surge como elemento de comunhão e congraçamento, alegria e melancolia ordinárias da ginga da sobrevivência por vezes esquecida. As frases que nos olham são exatamente o que são: uma lembrança contundente do regozijo que estrutura a fundação do que vem a ser brasileiro.
Os trechos retirados de músicas populares, ganham, a partir da eletricidade do néon, a intensidade que merecem, numa união potente entre palavra e imagem. Guardam agora, quando dispostas na paisagem-arquitetura, a dúvida atmosférica se de fato conseguiremos, após a devastação inevitável da pandemia, redescobrir tais vibrações e reinventar essa carga de sensações que precisou ser silenciada durante todo esse tempo. Nesse sentido, esta exposição é além de uma afirmação, um pedido para que nós todes, tenhamos coragem suficiente para que o samba nosso, situado sempre entre o público e privado, não morra nunca mais.
Alexandre Sá
2021