IMENSURÁVEL

por Alexandre Sá, 2018

CAIXA Cultural Fortaleza

“Imensurável” é o nome desta exposição individual de Felippe Moraes que, embora não seja propriamente uma retrospectiva, propõe estabelecer um panorama de uma trajetória abundante, repleta de silêncios, incógnitas e perguntas em suspensão. Imensurável é também o desejo que lhe move, em suas linhas furtivas de ficções e nas infinitas possibilidades de entrecruzamento da ciência e da arte. Imensurável é também a névoa contemporânea que nos inunda diariamente e nos leva a um estado sensorial deambulatório e, inevitavelmente, rizomático.

Se no cotidiano, tal lógica rizomática, termina por nos jogar em um processo de encontros, desencontros, dispersões, entorpecimentos e hiatos, o trabalho de Felippe Moraes é o avesso disso. Trata-se de uma proposta quase inconsciente de, a partir da entropia, encontrar um conjunto de metodologias que visam organizar o discurso plástico e visual que ao longo da história atravessou o desejo de artistas, filósofos, cientistas, matemáticos em suas infinitas fórmulas, mapas e cartas de navegação.

A questão estética que norteia sua trajetória surge, então, por meio de um entrecruzamento de referências, advindas das mais diversas áreas, sempre povoadas pela responsabilidade visual e formal, produzindo um novo compêndio de proposições artísticas que, como grande parte da boa produção recente, promove e provoca uma dúvida em suspensão, devolvendo-nos a uma área de indeterminação sobre o fim em si mesmo da existência, como em um vaivém filosófico, que continua a perguntar, numa vibração em subsolo, qual o estatuto da arte nos dias de hoje.

O trabalho é, em primeira instância, povoado de um quase hermetismo que eventualmente poderia provocar certo tipo de distanciamento recorrente na arte contemporânea. Por outro lado esse pseudo-hermetismo, que talvez também se fundamente através de uma precisão formal absoluta, desfaz-se rapidamente a partir do momento que nos interessamos por mergulhar em suas propostas e em seus jogos de interpretação. Quando isso ocorre, o espectador se deixa inundar por um conjunto de interrogações e deambulações epistemológicas que não optará por trazer resposta alguma, mas, sim, por provocar uma bruma levemente risonha que, por meio da conjunção com o trabalho exposto, brinca, ironiza a sua presença e discute o afã de cientificidade que atravessa esse tal homem contemporâneo em busca de infinitas soluções para o seu eterno processo de conhecimento//desconhecimento.

Esta exposição é esse conjunto de pontos de fuga que, em vez de apontarem para um horizonte específico, terminam por criar diversos horizontes e possibilidades interpretativas sob uma metodologia muito particular, na qual o artista constrói sua narrativa fragmentada, espessa e amparada, por sua qualidade e precisão, em alguns movimentos de arte que foram fundamentais para a segunda metade do século XX como o minimalismo, a land art e a arte conceitual.

Por outro lado, não se trata de um movimento nostálgico diante de tal legado, mas de um desejo vigoroso de reprocessamento de tais referências e da atualização desses movimentos em uma perspectiva histórica também entrópica e não mais linear. O devir contemporâneo que emerge dos trabalhos se nutre sem intenção específica de um passado, mas sua responsabilidade inquestionável é com o alinhamento das práticas híbridas e com a realocação de tais questões em uma linhagem histórica da arte mais dúbia, atemporal, paradoxalmente formal, monumental e aurática.

Suas fórmulas e suas fabulações estão todas ali. As equações matemáticas, as topologias do terreno (subjetivo e objetivo), a geologia do espaço (entre eu e o tu) e todas as outras possibilidades de compreensão e utilização do afã quantitativo que se estabelece como pesquisa. Contudo, Felippe Moraes faz uso desse material de maneira lúdica, consideravelmente ficcional, como se soubesse da verdade que atravessa tais cálculos e, exatamente por isso, optasse assumidamente por desconfiar deles, torcendo-os e aplicando-os já de outra forma, na materialidade refinada dos objetos e proposições; promovendo um tipo de lastro poético que se sustenta pela coragem da sua dúvida, pela certeza inelutável de suas angústias e pela instabilidade de suas formulações plásticas.

Em certo sentido, é possível afirmar que seja essa a especificidade do trabalho do artista. Se os anos 1960 e 1970 trouxeram uma potência de desmaterialização do objeto, bem como uma crença inconteste no processo de diluição da forma e na primazia do processo, para Felippe Moraes tais elementos servem como um compêndio de paradigmas a serem eclipsados, reinventados, colocados em marcha e em refluxo, em um jogo infinito de espelhos que visa, de maneira hercúlea, redescobrir e escavar pequenos fragmentos de eternidade na efemeridade da vida e da experiência estética, em suas fórmulas inacessíveis e potencialmente gráficas. O elemento conjuntivo que frutifica a partir da fricção entre palavra e imagem termina por abandonar vagarosamente sua potência conceitual, apontando então para uma retomada da lógica da fantasia nascente da concretude do mundo, iluminando o sintoma herdado por nós todos, de termos desaprendido a sonhar como os antigos artistas enciclopédicos.

Alexandre Sá
2018

Texto curatorial da exposição individual IMENSURÁVEL (2018) de Felippe Moraes na CAIXA Cultural Fortaleza.