Solfejo, 2019

Exposição Individual
Centro Cultural FIESP
Curadoria de Julia Lima
Curadoria Educativa de Giovanna Puerto Carlin
São Paulo – Brasil

A exposição Solfejo (2019) reúne 29 obras de Felippe Moraes apresentadas no Centro Cultural FIESP, articulando instalações, objetos e registros que investigam a relação entre som, imagem e percepção. Com forte caráter imersivo, a mostra propõe ao público uma ampliação sensorial ao integrar elementos visuais, sonoros, táteis e olfativos em um mesmo ambiente.

Entre trabalhos inéditos e obras já consolidadas, destacam-se instalações interativas que transformam o visitante em agente ativo da experiência. Redes que acionam sinos, estruturas que produzem intervalos harmônicos e ambientes impregnados por cheiros evocam a musicalidade como fenômeno expandido, que ultrapassa a escuta e atravessa o corpo.

Ao tomar o solfejo como metáfora, a exposição propõe uma leitura do mundo a partir de padrões invisíveis. Assim como a partitura permite antecipar o som, os trabalhos operam como dispositivos capazes de revelar estruturas latentes da realidade, aproximando ciência, espiritualidade e experiência sensível.

Textos curatoriais

DIVINO MARAVILHOSO – Julia Lima

“Atenção ao dobrar uma esquina”

Sons são elementos que nos conectam a transcendências, a memórias, a lugares, a pessoas. A música é uma manifestação presente em todas as culturas: é a arte das musas, é a manipulação da vibração, é a passagem do tempo, é linguagem, é abstração, é material e absolutamente etérea. Imagens são construções de luz e sombra, contorno e matéria. Ilustram ideias, desencadeiam fantasias, concretizam emoções, fixam a história.

O mito de Eco e Narciso é uma alegoria sobre essa relação nem sempre imediata entre imagem e som – fundadora tanto para a psicanálise, quanto para a arte. Narciso era um belo jovem que nascera sob a premonitória advertência de um oráculo de nunca ver a si mesmo, seu reflexo, sob risco de morte. Eco, por sua vez, era uma ninfa que tinha corpo, mas não tinha voz, amaldiçoada – por falar demais – a apenas repetir as últimas palavras que escutava. Aí reside a tragédia da obsessão com a (auto) imagem e com a repetição dos sons: a visão de si, que pode ser um outro, e a voz do outro que volta como a minha própria.

Cada vez que experimentamos arte, podemos encontrar a possibilidade de reviver simbolicamente o mito – procuramos nas obras algo de nós mesmos; alcançamos os imaginários que correspondem à representação do “eu”, tanto quanto do “outro”, e escutamos ecoar nossas palavras. Essas latências que a arte suscita são de uma potência profundamente transformadora (desde que não nos embriaguemos em nosso reflexo) – Narciso viu-se no espelho d’água e, encantado pelo seu duplo, afogou-se na própria imagem; no lugar onde morreu encontraram não seu corpo, mas uma flor. Eco, perdidamente apaixonada por Narciso, nunca conseguiu comunicar seus sentimentos; assustando o belo moço com os ecos, viveu escondida em uma gruta até virar apenas voz e ossos – tornou-se pedra.

Ao entrar na exposição, os visitantes surpreendem-se com a inesperada e potente consonância entre visualidade e música que informa estes trabalhos de Felippe Moraes. Apesar da abordagem lúdica de Solfejo, os trabalhos apresentados podem e devem ser experimentados por pessoas de todas as idades. Ademais, o momento de organização de uma mostra individual é uma chance rara de investigar um corpo de trabalhos e a pesquisa contínua de um artista sob novas perspectivas que levam em conta os diferentes públicos da instituição sem, entretanto, recorrer a recursos pueris ou a formatos obtusos e superficiais, dando sentidos diversos às coisas pela aproximação, pela oposição, pela conjunção ou pelo estranhamento. Já a curadoria de uma exposição, tanto quanto a sua vivência pelo público, é uma ação de apropriação, é um apossar-se de algo do outro para transformar a experiência em algo seu, ou mesmo nosso, e há quem chame isso de poesia.

“Atenção para o refrão”

“Atenção para o refrão”: é assim que Solfejo recebe o público, como uma primeira nota de uma melodia crescentemente complexa composta por Moraes, que mesmo não sendo músico, matemático, ou astrofísico, lança mão de todos esses assuntos em trabalhos tão poéticos quanto científicos; tão racionais quanto afetivos; tão destoantes quanto uníssonos. Há uma clara racionalidade musical nas experiências sensoriais desencadeadas pelas obras, ao mesmo tempo que a natureza lúdica da interação e cooperação nos transporta a estados mais surreais e inconscientes.

Subimos e descemos, como notas em um pentagrama, para sondar a escuta dos Tubos Sonoros (2014) que evocam as conchas da praia coladas ao ouvido. Balançamos nas redes de Composição Aleatória (2019) criando melodias espontâneas. Impossíveis de serem repetidas, as músicas geradas são singulares do momento e das pessoas que ali se encontram não para seguir partituras ou notações, harmonias e ritmos, mas sim para tornarem-se tão autores quanto o artista. Criar é também libertar e a realização de uma obra é também uma realização da humanidade. É um todo no qual a unidade é simultaneamente maior e menor que a soma das partes.

Em outros trabalhos, conformamo-nos em ser platéia, como à beira do palco de Harmonices Mundi (2017). O vídeo, realizado durante uma residência no Irã, parte do conceito de “Música das Esferas”. O trabalho baseia-se na formulação de 1619, de Johannes Kepler, que pressupunha a existência de uma harmonia cósmica, a possibilidade de haver padrões que regeriam todo e qualquer elemento do universo. A partir da análise das órbitas dos seis planetas conhecidos no século XVII – Saturno, Júpiter, Marte, Terra, Vênus e Mercúrio – o físico alemão estabeleceu uma correlação musical entre a velocidade da trajetória dos astros e a proximidade deles com o Sol: quanto mais próximos, mais agudos seriam os tons; quanto mais velozes, mais acelerados seriam os ritmos. Moraes tomou esses princípios para si e executou-os com uma banda: cada membro representa um planeta e, como num crescendo orquestral, o vídeo culmina no conjunto tocando simultaneamente em cacofonia.

“Atenção para o sangue sobre o chão”

O corpo, por sua vez, é implicado essencialmente em quase todos os trabalhos. Esta é uma mostra que deve, preferencialmente, ser experimentada em comunidade. A introspecção singular usualmente reservada à contemplação de obras fixas na parede dá lugar a vivências compartilhadas. Independentemente dos nossos desejos, encontramo-nos envolvidos em ruídos incontroláveis, enredados em aromas repentinos e convidados a aproximarmo-nos uns dos outros. A coletividade essencial às obras pode ser democraticamente libertadora e, juntos, nossos corpos alimentam suas potências, informam outras histórias, vibram futuros possíveis, criando momentos que não serão repetidos, mas serão vividos de novo e de novo e de novo.

Os tempos incertos que vivemos tem forçado nossos corpos a tornarem-se autômatos subjugados, a encaixarem-se em padrões que determinam os gestos humanos não em coreografias livres e fluidas mas em rígidas maquinações. Estamos acostumados a ser, a um só tempo, arados, moinhos, esteiras, teclados; nosso funcionamento está cada vez mais adequado à mecanização e à tecnologia; estamos integralmente adaptados a dispositivos externos, condicionados pelo mercado e pelo capitalismo, sujeitos ao labor e  ao tempo artificial do trabalho. Hoje tentam governar nossos corpos pelo consumo, pelo lazer (ou falta dele) e por expectativas impostas de auto-imagem e presença – o que nos leva a eternas insatisfações e, ao mesmo tempo, à obsessão pelo físico, pelo desempenho, pelo controle das fisiologias.

Às vezes nós nos esquecemos que carregamos nosso corpo conosco, corpo que todo dia faz tudo sempre igual e, como em Construção, que estamos submetidos ao ritmo nauseante da repetição. Nos assemelhamos a aparelhos e colocamos os nossos corpos à prova, desaprendendo nossas funções mais primordiais e amansando nossa natureza. No entanto, é urgente pensar nas diferentes possibilidades de entender e usar o corpo, próprio e alheio, especialmente em tempos de unificação e endurecimento dos discursos de vigilância, castidade e repressão, em detrimento de liberdade, autonomia, gozo e ampliação de potências. É preciso, também, evocar as memórias atávicas de nossos ossos e de nossa carne para lembrar que sempre fomos somos capazes de criar, sozinhos e em conjunto. Por fim, é imprescindível que se estabeleça a escuta, que se aprenda a ouvir a si mesmo e ao outro: é escutando e imitando, como Eco, que aprendemos a falar. Aquele que de fato é capaz da escuta pode tornar-se o portador da voz, do exercício da criação.

Esta exposição abre brechas nos estatutos que regulam o estado dos corpos. Na forma com que nos relacionamos com os objetos da mostra não é preciso haver literalidade ou rigor; não exige-se encaixe ou solidão. Aqui, há apenas o afeto e o calor da pele em contato com a dureza da ossatura, suscitando as inumeráveis possibilidades que o corpo tem de ser tanto mais que só matéria orgânica ou mecanismo biológico. A iminência corporal que as obras de Solfejo permitem emergir coloca-se em absoluta contraposição à materialidade industrial dos dispositivos expográficos, estabelecendo dialéticas relações entre harmonizações e conflitos resultantes do encontro de corpos – ora harmônicos, ora dissonantes.

“Atenção, tudo é perigoso”

Julia Lima
2019

Ressonância e Dissonância – Felippe Moraes


Entendo que a prática de um artista tem um eixo central, que ele pode ou não (re)conhecer. Com o passar do tempo, entendi o meu de certa forma como uma espiritualidade expandida que compreende a experiência material como abertura para outras possíveis. Uma espécie de alimento primordial de onde toda a obra emana.

Não vejo isso como algo que se define a priori, mas uma motivação maior que imbui a pesquisa de qualquer artista, que não é escolhida e nem inventada, é descoberta. O encontro com esse eixo se dá pelos cruzamentos sucessivos com o outro e consigo mesmo – Porque o motor absoluto do trabalho de arte é, em última instância, a própria subjetividade e suas relações com o mundo.

Esse eixo central, invisível, mas onipresente como em um movimento centrífugo, revela-se continuamente de diversas formas em minha obra: ora vestido de constantes matemáticas que pretendem dar conta da imensidão universal; ora como a proposta poética de um caminhar infindável em direção ao horizonte. Em outros momentos, surge como tentativa de visualizar o som e suas manifestações invisíveis, ou de expandir as suas experiências físicas, como nessa mostra.

Em dez anos, desde que comecei minha carreira, o Brasil e o mundo passaram por transformações profundas. Em meio a tais convulsões e mudanças, não estive alheio a me perguntar qual era a minha importância e pertinência como artista no esquema maior dos eventos contemporâneos. Fui e sou atravessado por um questionamento vibrante e necessário de entender qual o meu lugar como vetor de discurso e reflexão. Questionei, inclusive, o tal centro, invisível e onipresente. Duvidei até mesmo de sua existência.

Nesse contexto de crise, revela-se gradativamente frente aos meus olhos e às minhas percepções mais sutis, a compreensão de que a maior pertinência do artista seja, justamente, a de ser artista independentemente do motor e do ponto de partida. Dar conta de sua subjetividade e de revelar a vulnerabilidade reprimida, acabando por espelhar aquela de tantos outros que reverberam em si. O artista é, portanto, um arauto de seu tempo.

Num presente em que o dissonante e o opositor são silenciados e diminuídos frente à voz da turba, a subjetividade torna-se um elemento libertador e escuta-la é um ato de rebeldia.

Solfejo é uma ágora. Um ambiente de encontro e desencontro, onde é possível observar lapsos de vibrações, tangíveis ou intangíveis, literais ou metafóricos. Os corpos que se põem a acionar os mecanismos musicais, vibram e alteram o ambiente ao redor, transformando e recriando o espaço. A escuta, proposta em outros momentos, sugere que a frequência do outro e do mundo faça parte daquilo que nos torna o que somos.

Ao acontecer em um território central para as profundas alterações no tecido da história recente, Solfejo torna-se um espaço temporário de ruído e escuta ainda mais potente. A voz do artista, como sujeito, reverbera sua presença como vetor de transformação. O público, por sua vez, continua de onde o artista parou, ativando a matéria e colocando a subjetividade como ação transformadora do ambiente: ressoando e escutando.

Solfejo configura-se, então, como um dispositivo que dá voz ao ruído, ao corpo que destoa e ao grito dissonante, compreendendo-os como vetores de resistência e de re-existência contínua, e entendendo o outro como uma extensão de nós mesmos.

Felippe Moraes
2019