
Felippe Moraes
Sonho de um Sonho,
da série SAMBA EXALTAÇÃO, 2023
Néon
60 x 60 cm

Felippe Moraes
Sonho de um Sonho
da série SAMBA EXALTAÇÃO, 2021
Néon
130 x 130 cm
A obra Sonho de um Sonho (2023), de Felippe Moraes, consiste em um letreiro em néon disposto em forma circular que apresenta o título da canção homônima de Martinho da Vila. A frase é escrita de modo contínuo ao longo do círculo, criando uma leitura potencialmente infinita e ininterrupta. Sem início ou fim definidos, o texto parece girar sobre si mesmo, sugerindo a ideia de um sonho que contém outros sonhos em seu interior.
Essa estrutura circular estabelece uma metáfora visual para a própria construção poética do verso. Ao repetir-se continuamente, a frase cria uma espécie de espiral de significados — um sonho dentro de outro sonho, que por sua vez contém novos desdobramentos imaginários. O néon, com sua luz constante e vibrante, reforça essa sensação de fluxo contínuo.
A obra toma como referência o samba-enredo “Sonho de um Sonho”, composto por Martinho da Vila para a escola de samba Unidos de Vila Isabel e apresentado no Carnaval de 1980 na Sambódromo da Marquês de Sapucaí.
O samba foi criado em um momento histórico particular do Brasil. No final da década de 1970 e início dos anos 1980, o país começava lentamente a se desvencilhar das amarras da ditadura militar instaurada em 1964. Nesse contexto, o desfile da Vila Isabel evocava uma atmosfera de esperança e transformação.
Inspirada no poema “Sonho de um Sonho”, de Carlos Drummond de Andrade, a canção reunia imagens de liberdade e desejo coletivo. Em sua letra, surgem versos que expressam sonhos sociais e políticos, como:
“As mentes abertas
Sem bicos calados
Juventude alerta”
E ainda a aspiração contundente por um país em que pudesse existir “a prisão sem tortura”.
Cantadas a plenos pulmões na avenida, essas palavras ecoavam como expressão simbólica de um momento de transição histórica, em que a imaginação coletiva projetava possibilidades de transformação para o futuro.


Luz, circularidade e tempo
Ao transformar o título dessa canção em um letreiro circular de néon, Moraes cria um dispositivo visual que relaciona linguagem, história e memória cultural. A circularidade da frase não apenas sugere a ideia de repetição infinita, mas também estabelece uma relação simbólica com o tempo cíclico das festas populares e do próprio Carnaval, que retorna ano após ano.
A luz contínua do néon reforça essa dimensão temporal. Diferente de uma frase impressa ou escrita em papel, o texto luminoso projeta-se no espaço e transforma-se em presença ambiental. O verso deixa de existir apenas como memória sonora e passa a operar como imagem e atmosfera.
Assim, a obra conecta diferentes camadas culturais: o universo do samba, a poesia modernista brasileira e a história política recente do país.
Duas versões da mesma obra
Sonho de um Sonho possui duas versões distintas, que exploram diferentes escalas da mesma ideia.
A primeira versão apresenta apenas o trecho reduzido “Sonho de um sonho”, escrito em círculo com aproximadamente 60 cm de diâmetro. Nessa configuração, a frase funciona como um núcleo poético condensado, enfatizando a repetição e a continuidade do enunciado.
A segunda versão amplia a escala da obra para cerca de 120 cm de diâmetro e apresenta um trecho mais extenso do samba:
“Sonhei que estava sonhando um sonho sonhado, o sonho de um sonho”.
Essa versão expande ainda mais o jogo de reflexividade presente na letra, criando um encadeamento linguístico que parece dobrar o próprio ato de sonhar sobre si mesmo.