


Vistas de SAMBA EXALTAÇÃO (2021), intervenção urbana em néon de Felippe Moraes.
Samba Exaltação, 2021
Intervenção Urbana
Edifício MIrante do Vale
Textos curatoriais de Ana Roman, Alexandre Sá e Daniel Rangel
São Paulo – Brasil
A intervenção Samba Exaltação, de Felippe Moraes, surge no contexto do Carnaval suspenso pela pandemia, ocupando simbolicamente o vazio deixado pela ausência da festa. Concebido como um gesto para preencher essa lacuna coletiva, o trabalho transforma versos de sambas clássicos em neons exibidos na paisagem urbana, criando uma presença luminosa que ecoa a festa que não pôde acontecer.
Realizada em um momento em que centros culturais estavam fechados, a obra desloca o espaço expositivo para um território inesperado. Instalada na janela do apartamento do artista no Edifício Mirante do Vale, então o mais alto do Brasil, a intervenção habita uma zona ambígua entre o íntimo e o público, projetando-se sobre o Viaduto Santa Ifigênia e o Vale do Anhangabaú.
A série é composta por quatro neons apresentados sequencialmente ao longo do período que se inicia na sexta-feira de Carnaval e vai até a Páscoa, instaurando uma narrativa temporal sobre o calendário litúrgico ao atravessar a quaresma. Cada frase permanecia exposta por 13 dias, até ser substituída pela próxima, somando 52 dias no total.
O projeto se expande também no campo discursivo, reunindo textos curatoriais inéditos de Ana Roman, Alexandre Sá e Daniel Rangel. Ao articular cidade, linguagem e experiência coletiva, Samba Exaltação transforma a falta em presença e inscreve no espaço urbano uma promessa de retorno, onde o canto permanece aceso mesmo quando a festa silencia.
Textos Curatoriais
Agoniza mas não morre – Ana Roman
Como uma nota de rodapé do skyline na cidade, um neon vermelho anuncia a chegada do carnaval. Em 2021, a festa que antecede a Páscoa em quarenta dias não ocorre no seu principal palco: a rua. Todos aqueles que tem o privilégio da escolha estão recolhidos em suas casas diante de um vírus invisível que ameaça a vida. Não é à toa que o primeiro neon de ‘Samba Exaltação’, projeto de Felippe Moraes, traz as inscrições “Agoniza, mas não morre”.
A frase dá nome a uma canção composta por Nelson Sargento, em 1978, e eternizada pela voz de Beth Carvalho. A canção conta a história da marginalização do samba por sua associação direta com a população negra, e de sua posterior elitização. Ela faz uma crítica à mudança de estrutura instrumental e à roupagem que foi imposta ao gênero pela elite que dele se apropria. Apesar dos percalços, na canção, o samba resiste e sobrevive. E resiste coletivamente.
O carnaval, neste ano de 2021, também resistirá: nas canções que sabemos de cor, em pequenos atos e gestos. Os neons de Moraes são uma espécie de gatilho para acessarmos, no silêncio de canções que nos habitam, recordações de como era estar junto, e projetarmos o nosso futuro. Tais memórias, individuais e coletivas, mobilizadas pela música, podem ainda ser carnavalizadas, mesmo sem o encontro físico. O carnaval resiste pelo cuidado com o outro e por assegurarmos o abraço e a possibilidade de presença compartilhada no amanhã.
Os versos do samba, que ressoam em tom baixo – porém persistente – desde a janela do apartamento de Moraes, localizado na arquitetura brutalista do edifício mais alto da cidade, cantam sobre os tempos difíceis que vivemos e entoam uma possibilidade de saída. Como na bela canção de Sargento, aquilo que nos socorrerá talvez seja a crença no coletivo diante do individualismo e, ao mesmo tempo, a resistência do individual diante da massificação. Moraes aponta, com uma certa melancolia esperançosa, para o tom que podemos seguir.
Ana Roman
2021
Uma Pausa de Mil Compassos – Alexandre Sá
“Viver essa longa avenida de gás neon
Portas de ouro e prata
Falsos sonhos nessas noites de verão
Faces coloridas, farsas de alegria
Beijo sem sabor
Gestos clandestinos tontos e sedentos de amor
Espinhos, rosas, risos, pranto e tanto desamor
Corte, cicatrizes, gritos engasgados
Lágrimas de dor
Máscara no rosto, continua a festa
No sorriso o sal
A orquestra geme as dores do palhaço
Triste marginal
Ai de quem mergulhar nesse mar de veneno
Nessa lama enfeitada, nesse sangue das taças
Temendo sofrer
Ai de quem quer negar esse mar de veneno
Mil vezes maldito na inconsciência
Das vidas à margem há de ser”
Gonzaguinha
O neón foi descoberto no final do século XIX e com considerável velocidade tornou-se um emblema da modernidade, do progresso e das eventuais transformações sociais e urbanas pelas quais passaríamos nos anos seguintes. Se o seu surgimento e utilização são estruturais para o pensamento da cidade como imaginário em trânsito, não é raro nos depararmos com uma outra imagem de sua presença não menos imaginária: a solidão de sua luz falha ao piscar em uma vitrine vazia dentro de uma noite veloz.
Uma pausa de mil compassos é o segundo movimento de uma série de trabalhos em que Felippe Moraes destaca trechos afetivos de músicas e os coloca em suspensão na janela de seu apartamento próximo ao viaduto Santa Efigênia, no centro de São Paulo. Aqui, neste caso, o verso de Paulinho da Viola ganha novos timbres, talvez fantasmáticos, diante de uma pausa opressiva inevitável diante de um problema de saúde pública, aliado a falta de responsabilidade com o coletivo, permeado por uma abordagem necrófila.
A solidão ressurge agora potencializada na imbricada relação entre público e privado. Se por um lado, sair e existir o espaço do mundo é risco de morte, por outro, manter-se no mundo é sustentar o estar em si dialogando com o risco intransponível da intimidade devassada das telas. O liame entre eu e outrem, talvez como resultado de um atabalhoado processo de construção que insiste em desconsiderar seu passado, é esfacelado. O que resta é a saudade nostálgica de um tempo futuro. Em eterno porvir. A ser acendido e apagado. Como se numa parede invisível de uma caverna íntima em que a expressão pura do viver ainda urge.
Alexandre Sá
2021
Um grito de luz – Daniel Rangel
Em 1982, o artista-poeta Augusto de Campos, que recentemente completou noventa anos, expôs seu poema “O Quasar” em um painel luminoso na fachada de um edifício localizado no Vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo. O jornalista Telmo Martino, em tom sarcástico, escreveu a respeito da intervenção afirmando que “finalmente Augusto de Campos havia encontrado seu público: os mendigos e trombadinhas do centro da cidade”. A ironia se tornou uma das críticas preferidas de Augusto, pois escancarou um dos objetivos do grupo concreto que era justamente a de tornar a poesia popular e acessível para todos. A expansão poética para outros suportes foi, e segue sendo, uma das estratégias mais recorrentes utilizadas por artista-poetas que buscam explorar a dimensão verbivocovisual em seus trabalhos. O conceito, apropriado da obra de James Joyce, propõe a união simultânea de aspectos verbais, visuais e sonoros em uma mesma obra. Uma conexão intersemiótica que influenciou diferentes gerações artísticas – neoconcretistas, tropicalistas, conceituais e tribalistas – e que de forma intrínseca se encontra presente no projeto “Samba exaltação”, de Felippe Moraes. Aproximadamente quarenta anos após, Moraes repetiu inusitadamente a ação do poeta concreto e propôs uma série de intervenções verbivocovisuais na fachada do seu apartamento, no icônico Edifício Mirante do Vale, o mais alto de São Paulo, também localizado no Vale do Anhangabaú. Palavras escritas em néon que reverberam como um grito luminoso para “o olhouvido ouvê”1, questionam o momento atual. Estrofes de músicas carnavalescas que cantam a alegria e celebram a vida chamam a atenção para a morte e a necessidade de repensarmos o cotidiano. Não temos o que comemorar: um ano sem festas, sem natal, sem réveillon, sem carnaval. O calendário parou e o movimento natural foi supostamente interrompido. A possibilidade de estar nas ruas, sem limites e freios, liberando a libertinagem momesca, deu lugar ao refúgio consciente daqueles que ajudam a salvar vidas. Moraes se utiliza das redes sociais para compartilhar a perspectiva de sua obra que integra ao mesmo tempo a cidade e sua casa e interliga o público com o privado. O letreiro de néon, frio e intenso, recurso artístico recorrente, meio de comunicação das grandes metrópoles, de lojas a hospitais, aqui se torna voz e até mesmo alto-falantes de um gigantesco trio-elétrico que parou. Não se ouviu samba no Rio ou em São Paulo, nem frevo no Recife ou axé em Salvador. O país do carnaval já não é o mesmo, e isso já faz algum tempo. A nação do futuro deu lugar ao local do retrocesso. A pluralidade e o respeito à diversidade, motivos de orgulho de outras décadas, perderam eco em meio aos discursos de ódio que buscam segregar as pessoas. O que vem acontecendo? Será que o movimento natural não foi interrompido, e estamos mesmo diante de uma distopia catastrófica. Talvez, sim. De fato, preocupa a insistência por uma volta à normalidade em meio ao caos sanitário, social, político e planetário que estamos vivendo. Conforme bem destacou Ailton Krenak, “voltar ao normal seria como se converter ao negacionismo e aceitar que a Terra é plana. Que devemos seguir nos devorando.”2 Uma mensagem que deve ser ecoada por todas as vozes e maneiras, inclusive pelos artistas que são faróis e iluminam o futuro. E quem sabe algum dia, “viver será só festejar.”
Daniel Rangel
Curador, mestre e doutorando em Poéticas Visuais pela ECA USP
1 Pignatari, Décio. Nova poesia: concreta (manifesto)
2 Ailton Krenak em entrevista ao jornal O Globo, em 06/04/2020. Acessado em 09 /05/2020. https://oglobo.globo.com/cultura/voltar-ao-normal-seria-como-se-converter-negacionismo-aceitar-que-terra-plana-diz-ailton-krenak-24353229.

Agoniza mas não morre, da série SAMBA EXALTAÇÃO, 2021
Intervenção urbana em néon
Uma pausa de mil compassos, da série SAMBA EXALTAÇÃO, 2021
Intervenção urbana em néon


E viver será só festejar, da série SAMBA EXALTAÇÃO, 2021
Intervenção urbana em néon
Quero viver no Carnaval, da série SAMBA EXALTAÇÃO, 2021
Intervenção urbana em néon

Principais Exposições
- 2025 – Solfejo – CAIXA Cultural Curitiba (Paraná, Brasil)
- 2025 – Solfejo – CAIXA Cultural Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Brasil)
- 2024 – Solfejo – CAIXA Cultural Brasília (Distrito Federal, Brasil)
- 2021 – Um Brado Retumbante (curadoria de Henrique Menezes) Bolsa de Arte (São Paulo, Brasil)
Imprensa
- 2021 – “Melancolia e ausência do carnaval inspira arte em néon no centro de São Paulo – Folha de S. Paulo
- 2021 – “Felicidade Clandestina” – Revista Celeste
- 2021 – “‘Não deixe o samba morrer’, apesar da pandemia alarmante no Brasil” – Jornal da USP
- 2021 – “MAC de Niterói celebra 25 anos com exposições, eventos e entrada grátis; veja a programação” – O Globo
- 2025 – “Garimpo – Felippe Moraes” – DasArtes