
Felippe Moraes
O Peso do Verbo, 2010 – 2014
Vidro, estantes de vidro,
balança de precisão, sal, pesos de latão,
72 reagentes condutores de eletricidade
e gravação a laser sobre acrílico.
600 x 200 x 150 cm

O Peso do Verbo (2010 – 2014), de Felippe Moraes, é uma instalação que investiga a materialidade da palavra, a relação entre linguagem e espiritualidade e os limites dos sistemas humanos de medição.
A obra é composta por 72 recipientes de vidro, cada um contendo 15 gramas de materiais condutores de eletricidade. Esse valor corresponde exatamente ao peso das 5.101 ocorrências da palavra “Deus” recortadas de uma Bíblia na obra anterior do artista, Verbo (2009–2010).
A partir desse dado físico, o peso da palavra, o trabalho propõe uma transmutação simbólica. A linguagem religiosa transforma-se em matéria, sugerindo uma equivalência entre palavra, energia e criação.
Diante dos 72 recipientes de vidro, encontra-se uma balança de precisão analógica que funciona como um ponto de síntese conceitual da obra. Em um dos pratos repousam os próprios lastros da balança, de 5 g e 10 g, totalizando 15 gramas. No prato oposto, em equilíbrio rigoroso, encontram-se 15 gramas de sal.
O dispositivo estabelece uma cena silenciosa de equivalência entre medida técnica e matéria simbólica. O peso exato que estrutura a instalação reaparece ali como experiência visual direta, convertendo o cálculo em imagem.
Ao escolher o sal, substância historicamente associada à preservação, ao valor econômico e a diversas tradições espirituais, a obra amplia sua reflexão sobre matéria, linguagem e transcendência.
A balança torna visível a tentativa humana de quantificar aquilo que, no campo do sagrado e da palavra, parece sempre escapar à régua e ao peso.


Palavra, alquimia e criação
A obra parte da ideia de que a palavra possui poder criador, uma noção presente em diversas tradições religiosas e místicas.
O título do trabalho remete ao prólogo do Evangelho de João. Nesse trecho, afirma-se que “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Nesse contexto, a palavra não é apenas um instrumento de comunicação, mas um princípio criador.
Essa concepção também aparece em tradições místicas que associam letras e palavras a forças espirituais. No misticismo judaico, por exemplo, Deus possui 72 nomes, cada um representando um aspecto ou manifestação da divindade.
A instalação faz referência direta a essa tradição ao apresentar 72 recipientes, cada qual contendo materiais pesados com o mesmo valor obtido no trabalho anterior. O número transforma-se assim em um elemento simbólico que conecta linguagem, teologia e experimentação material.
Eletricidade e manifestação do divino
Os materiais escolhidos para compor a instalação possuem uma característica em comum. Todos são condutores de eletricidade.
A escolha não é arbitrária. Em diversas mitologias e textos religiosos, manifestações divinas aparecem associadas a fenômenos elétricos ou luminosos, como raios, descargas ou luzes celestes.
Essas imagens aparecem em narrativas associadas a divindades como Xangô, Iansã, Zeus ou Tupã, além de episódios bíblicos relacionados à presença divina.
Ao reunir materiais capazes de conduzir eletricidade, O Peso do Verbo sugere uma analogia entre energia invisível e espiritualidade. Assim como a eletricidade percorre a matéria sem ser vista, o divino é frequentemente descrito como uma força invisível que atravessa o mundo material.


A falência da medida
Embora o trabalho utilize procedimentos rigorosos de pesagem e organização, ele também revela os limites desses sistemas.
A tentativa de materializar o divino por meio de pesos e medidas inevitavelmente expõe uma falência metodológica. Qualquer sistema humano de medição permanece insuficiente diante de conceitos como infinito, transcendência ou divindade.
Essa falência, porém, não é um erro do trabalho. Ela é parte essencial de sua estrutura. Ao tentar medir aquilo que excede toda medida, a obra evidencia os limites das linguagens científicas e racionais.
Assim, O Peso do Verbo situa-se entre ciência, espiritualidade e experiência estética, propondo uma reflexão sobre a tentativa humana de compreender o invisível.
