Vista geral da instalação Verbo com Bíblia recortada e palavras “Deus” organizadas em folhas de papel.

Felippe Moraes
Verbo, 2009 – 2010
Bíblia católica, papel e cola
29,7 x 21 cm (cada uma das 60 folhas de papel)
45 x 30 cm (Bíblia)

Processo de recorte da palavra “Deus” em Bíblia na obra Verbo de Felippe Moraes.

Verbo, 2009 – 2010

A obra Verbo (2009–2010), de Felippe Moraes, é uma investigação sobre linguagem, espiritualidade e materialidade da palavra. O trabalho parte de um gesto simples e radical: remover manualmente todas as ocorrências da palavra “Deus” de uma Bíblia católica impressa.

Ao longo de aproximadamente sete meses, o artista realizou um processo contínuo de leitura, identificação e recorte dessa palavra ao longo de todo o livro. O resultado desse procedimento é uma Bíblia fisicamente transformada e um conjunto de fragmentos de papel que registram cada ocorrência da palavra.

No total, foram identificadas e recortadas 5.101 aparições da palavra “Deus”, que posteriormente foram reunidas e pesadas. O peso final do conjunto — 15 gramas — torna-se um dado central da obra O Peso do Verbo (2014), desenvolvida posteriormente, estabelecendo uma relação direta entre linguagem, matéria e medição.

A partir desse procedimento, Verbo transforma um conceito teológico em um experimento material: o peso da palavra que nomeia o divino.

Processo duracional

A realização da obra ocorreu como um processo prolongado e repetitivo, descrito pelo artista como uma espécie de peregrinação. Durante sete meses, cada página da Bíblia foi examinada cuidadosamente para localizar e remover a palavra “Deus”.

Ao longo desse percurso surgiram variações tipográficas e gráficas que exigiram soluções específicas. Algumas ocorrências estavam em itálico, outras em caixa alta ou em tamanhos de fonte diferentes. Em certos casos, a palavra aparecia dividida entre duas páginas.

Para lidar com essas diferenças, foi criado um sistema de catalogação baseado nas características gráficas de cada ocorrência. Assim, as palavras foram organizadas em categorias como “letras menores”, “itálico”, “caixa alta” ou “palavras cortadas”.

O processo também assume a possibilidade de erro. Como gesto humano e exaustivo, o trabalho admite a chance de alguma ocorrência ter passado despercebida. Essa hipótese é incorporada na obra por meio de uma última folha intitulada “invisíveis e despercebidos”, que representa a possibilidade de uma palavra não vista.

Processo de recorte da palavra “Deus” em Bíblia na obra Verbo de Felippe Moraes.
Processo de recorte da palavra “Deus” em Bíblia na obra Verbo de Felippe Moraes.

O título da obra remete diretamente ao prólogo do Evangelho de João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Esse trecho estabelece uma das bases conceituais do trabalho, aproximando linguagem e criação.

A ideia de que a palavra possui poder criativo aparece em diversas tradições espirituais. Ao isolar e reunir milhares de ocorrências da palavra “Deus”, Verbo transforma essa dimensão simbólica em objeto físico, aproximando linguagem, teologia e experiência material.

Da palavra ao peso

Após a conclusão do processo de recorte, todos os fragmentos foram reunidos e pesados. O resultado, 15 gramas, torna-se um elemento fundamental da obra.

Esse número não pretende representar o divino em si, mas sim evidenciar a impossibilidade de medi-lo. O gesto de pesar a palavra expõe uma tensão entre sistemas humanos de medição e aquilo que, por definição, excede qualquer tentativa de quantificação.

A obra revela assim uma espécie de falência produtiva: ao tentar medir o imensurável, evidencia-se justamente o limite de nossos sistemas de conhecimento.

Processo de recorte da palavra “Deus” em Bíblia na obra Verbo de Felippe Moraes.

A origem de O Peso do Verbo (2014)

O valor obtido no final do processo desencadeou diretamente uma segunda obra do artista: O Peso do Verbo (2014).

Nesse trabalho posterior, Felippe Moraes utiliza o mesmo peso obtido em Verbo como base para uma instalação composta por materiais condutores de eletricidade. A obra amplia a investigação iniciada no primeiro trabalho, transformando a palavra em matéria e explorando relações entre linguagem, alquimia e energia.

Assim, Verbo funciona como ponto de partida conceitual e metodológico para um desdobramento que amplia suas questões para o campo da instalação e da experiência espacial.

Instalação das obras Verbo e O Peso do Verbo de Felippe Moraes na exposição Imensurável na CAIXA Cultural Fortaleza.
Verbo (2009–2010) e O Peso do Verbo (2014) na exposição individual Imensurável na CAIXA Cultural Fortaleza, 2018.

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