
Ordem, 2014
Exposição Individual
Baró Galeria
Texto curatorial de Adriano Casanova
São Paulo – Brasil




A exposição Ordem foi desenvolvida durante residência artística na Baró Galeria, na Barra Funda, e marca um momento fundamental na produção de Felippe Moraes. A mostra apresenta, pela primeira vez, um conjunto de trabalhos que se tornariam centrais em sua trajetória, como Solfejo, Movimento Pendular, Desenho Sonoro e Tubos Sonoros.
A exposição investiga a existência de padrões invisíveis que estruturam a realidade. Por meio de dispositivos, instrumentos e sistemas criados pelo próprio artista, esses ritmos ocultos tornam-se perceptíveis. A obra opera na transição entre o invisível e o visível, revelando camadas de ordem que não se apresentam imediatamente à percepção cotidiana.
Ao articular som, imagem, tempo e movimento, Ordem propõe uma experiência sensível daquilo que escapa à observação direta. A mostra sugere que a realidade é atravessada por sistemas e frequências que, embora imperceptíveis, organizam o mundo de maneira profunda e contínua.

Texto curatorial
Situações em Residência – Adriano Casanova
A experiência e o fazer artístico sempre estiveram atrelados as situações por onde percorre o artista, sejam elas empíricas, cientificas, emocionais ou qualquer outra, elas estão presentes em sua arte e no instante de criação. Neste sentido, a proposta de residência artística serve exatamente para instigar o artista a estas novas situações e, consequentemente, novas experiências – este deslocamento é estimulado através de sua geografia, dia a dia, cultura, língua, etc, criando novas plataformas para sua arte.
“(…) Um não pode realmente comentar, mas dizer, tem que entrar, viver nas ideias profundamente a fim de desenvolver a forma que lhe seja apropriada para o tempo e o lugar específico”
“(…)One cannot really comment but to say, one has to enter, to live into the ideas deeply, in order to develop the form that is appropriate to the specific placr and time”
(J. Beuys. Social Sculpture Colloquium. The Free International University. (1995) Editado por Shelley Sacks. 1997. Goeth- Institut Glasgow)
A idéia de Beuys é que para haver arte só precisa haver uma situação e é através dessas situações que a mostra com os três artistas residentes Alan Fontes (Minas Gerais), Felippe Moraes (Rio de Janeiro) e Ramon Vietez (Pernanbuco) se consolida.
Durante alguns meses e vivências no bairro da Barra Funda, em São Paulo, estes artistas colocaram suas obras como uma consequência, como um resultado da sua arte submetida as reais e imaginarias intempéries do tempo.
(…)
Por outro lado, na mostra “Ordem” do carioca Felippe Moraes, a situação caminha para o viés da Ciência, ou melhor, das incertezas das fórmulas. Como ele mesmo define: de uma geometria invisível. Moraes não só se concentra no fator histórico de suas pesquisas matemáticas, mas também nos ‘erros’ fundamentais do processo de descobrimento de uma fórmula, dando espaços para as questões empíricas, espirituais e metafÍsicas de sua matemática inventada.
A imagem milimetricamente desenhada com areia no chão, o cálculo, o tempo e o desejo, a espera do imprevisível em algo testado cientificamente. Sua arte está nesta linha que divide estes dois mundos, na atenção à uma imprevisibilidades dos cálculos matemáticos somada a uma busca por diferentes maneiras de representação na arte contemporânea que resulta no encontro entre o acerto que vem depois do erro, em uma realidade não calculada.
Como na obra ‘Solfejo’, em que as notas musicais Dó, Ré, Mí, Fá, Só, Lá Sí, Dó são fotografadas através do método da mão Guindoniana, criado pelo cientista Guido D’Arezzo. Na pesquisa por outras maneiras de registrar as representação matemáticas Moraes se apropria desta linguagem fotográfica na criação das imagens sonoras.
(…)
Para uma galeria hoje criar um programa de Residencias requer diversos fatores que não necessariamente permeiam o mercado da arte e sua logística.
Com um maquinário velozmente sedimentado em que é necessário expor na próxima feira de arte a ultima obra ou o artista do momento, um local de pesquisa e desenvolvimento conceitual para o artista acaba ficando em segundo plano nas estratégias comerciais de uma empresa que comercializa obras de arte. Mas a arte não é feita somente de objetos comercializáveis e as galerias estão preocupadas com este dilema, mais uma vez, redesenhando e redescobrindo o circuito. Os artistas não só residem, eles resistem.
Adriano Casanova