
Cosmografia, 2017
Exposição Individual
Baró Galeria
Curadoria de Julia Lima
São Paulo – Brasil
A exposição individual Cosmografia (2017) de Felippe Moraes, apresentada na Baró Galeria, reúne um conjunto de trabalhos que investigam diferentes formas de mapear o cosmos, transitando entre ciência, espiritualidade e linguagem simbólica. Com curadoria de Julia Lima, a mostra articula fotografia, vídeo e desenho em um campo expandido onde o visível e o invisível se entrelaçam.
Entre os trabalhos, destaca-se o vídeo The Drag That Said Phi (2017), com Alaska Thunderfuck, no qual a performer recita a sequência numérica da proporção áurea, tensionando noções clássicas de beleza e revelando o abismo entre linguagem matemática e corpo. Em paralelo, a série Movimento Pendular apresenta registros luminosos que tornam visíveis trajetórias orbitais, enquanto Keyhan (2017) documenta padrões geométricos em mesquitas iranianas, evocando o cosmos através da arquitetura.
A exposição se expande ainda no vídeo Harmonices Mundi (2017), inspirado nas teorias de Johannes Kepler, no qual relações entre som e movimento planetário são traduzidas em composição musical. Ao reunir esses trabalhos, Cosmografia propõe uma cartografia sensível do universo, onde números, imagens e experiências se tornam ferramentas para compreender a complexidade do real.





Texto curatorial
Cosmografia – Julia Lima
Um vírgula seis um oito zero três três nove oito oito sete quatro nove oito… O universo repete padrões que são seguidos por galáxias, girassóis, abelhas e conchas, unindo estruturas díspares e aparentemente aleatórias em leis de comportamento reiteradas. The Drag That Said Phi é um dos vídeos de Felippe Moraes apresentados na exposição Cosmografia, visto ao final do percurso dentro da galeria. É, também, de alguma forma, o desencadeador de todas as outras obras que vemos primeiro – e que foram feitas depois. Mas o conceito de tempo é relativo. No telão, a superstar Alaska Thunderfuck, em full drag, encara a câmera e recita lentamente os números da proporção áurea, às vezes modulando a voz, e sempre acompanhando a narrativa com os dedos. O cenário, a peruca, a roupa, a luz, tudo é branco, exceto pelas garras de verso vermelho; ela faz pausas cômicas, carões e sussurra e ronrona, em uma performance hipnótica pela repetição nonsene de números que perdem o sentido e se tornam palavras, entremeadas por estalos de língua e gestos afetados. Phi é uma constante irracional, uma razão que se repete na matemática, e na natureza, assim como no corpo humano ideal – como a distância do ombro à ponta do dedo dividida pela medida do cotovelo à ponta do dedo. Contudo, o Homem Vitruviano não existe, e Moraes toma a irracionalidade matemática em seu sentido poético: Phi é uma lei arbitrária que ordena e harmoniza tudo, mas que quando aplicada aos corpos reais nunca é exata, precisa. Os padrões são modos de encaixar que forçam ordem, simetria e harmonia e nos ajudam a entender as vissicitudes de uma vida que, não fosse por essa razão maior, não faria sentido.
Esse padrão foi empregado pelos gregos nas estátuas do Parthenon, por Giotto em seus afrescos renascentistas, por físicos como Johannes Kepler. Vemos do lado de fora da galeria, no container, uma espécie de epílogo ou post scriptum que desdobra duplamente esse conceito. Primeiro, porque deriva de um livro de Kepler sobre geometria e astronomia; segundo, porque o filme carrega o mesmo nome do livro, Harmonices Mundi, e aqui a ideia de harmonia se reitera, agora na acepção musical. Em suas pesquisas por ordens e padrões cosmológicos, Moraes encontrou a ideia de “música das esferas”, formulada por civilizações milenares, que pressupunha a existência de uma harmonia matemática universal. Kepler deduziu dois princípios sobre o movimento dos planetas e reprisando a ideia de harmonia, correlacionou a música com a velocidade da trajetória dos astros em volta do sol – Saturno, Júpiter, Marte, Terra, Vênus e Mercúrio. quanto mais próximos do sol, mais agudo seria tom; quanto mais rápida a velocidade de cada planeta, mais rápido o ritmo. Moraes apropriou-se desse desenvolvimento teórico para realizar o vídeo homônimo durante uma residência artística no Irã. Em parceria com a banda Bomrani, executou as partituras dos astros . Cada membro da banda interpreta um planeta diferente, apresentando-se individualmente e em conjunto, em uma (des)harmonia cacofônica. A música é uma espécie de ponte entre céu e terra.
Durante essa mesma residência, em pesquisa pelas mesquitas da cidade deShiraz, o artista realizou registros fotográficos dos padrões geométricos em relevo integrados à arquitetura da Mesquita Atiq Jame. Intitulada Keyhan (Cosmos em farsi), a série apresenta tetos da construção e suas linhas regulares, suas formas simétricas e perfeitas evocando as relações matemáticas, a trama do tecido que une o universo. As superfície toda branca ganha tonalidades cinzas no preto e branco da reprodução fotográfica, as sombras desenham os volumes e as imagens ora parecem crateras lunares, ora topografias, ora fractais.
Em paralelo, Moraes apresenta também Movimento Pendular – experimentos luminosos fotográficos que traçam deslocamentos rotacionais a partir de pêndulos – eseus Intangible Objects, ou objetos intangíveis, uma série de desenhos em papel que descrevem com palavras – e não com imagens – situações que, ainda, só podem existir na elucubração mental, uma vez que estamos presos às três dimensões palpáveis e às leis do movimento, da gravidade e da termodinâmica. Esses desenhos criam espaços que não existem, mundos paralelos onde um prisma de dimensões infinitas, um sólido com número indefinido de faces, uma substância líquida que não tem peso, linhas perpendiculares que não forma um ângulo reto podem conviver. Esses paradoxos são detalhados na mesma forma de enunciados matemático-filosóficos, mas configuram-se como pequenos poemas ou haicais pseudocientíficos operando situações impossíveis, possíveis dentro da nossa imaginação. Tudo que se pode imaginar é real.
Assim, os objetos intangíveis aproximam-se, estranhamente, de The Drag That Said Phi – ambos sustentam a distância entre os padrões e o desejo do poder-ser (afastando-se, então, do dever-ser), e revelam a fissura tangível na regra que deveria ordenar tudo mas que, ao fim, só alcança imperfeições ou impossibilidades. De fato, os números da proporção nunca se repetem com exatidão quando medimos nossos membros, e nossos paradigmas científicos estão sempre sendo revistos e ampliados. Afinal, é nas proximidades do buraco negro do chão da galeria que as leis da física são distorcidas.
Para os avessos às ciências exatas, esse texto pode parecer detestável – afinal, o que a arte tem a ver com a matemática, com a física? Mas Felippe Moraes interessa-se pela ciência tanto quando pela linguagem e pela poesia, investigando sempre os limites entre ampliações da percepção e racionalidade objetiva, entre o espiritual e o científico, o manual e o tecnológico, o sujeito e o objeto.
Julia Lima
2017