Felippe Moraes
Ungido, 2011
Ouro, níquel, madeira e ferro
22 x 1,5 x 9cm

A escultura Ungido (2011) parte de um gesto direto e carregado de simbolismo. Um martelo comum, adquirido em uma loja de materiais de construção, é banhado a ouro. A ação aproxima literalidade e metáfora ao evocar a tradição alquímica de transformar materiais ordinários em substâncias nobres. O objeto passa a operar simultaneamente como artefato cotidiano e como signo de valor simbólico, econômico e quase sagrado, considerando a importância atribuída a esse metal em diversas civilizações ao longo da história.

O martelo figura entre as ferramentas mais antigas desenvolvidas pela humanidade e está associado às primeiras intervenções técnicas sobre o ambiente. Ele remete às origens do trabalho humano e aos gestos iniciais que permitiram moldar matéria, construir estruturas e organizar os primeiros núcleos de civilização. Ao receber o revestimento dourado, esse instrumento primordial adquire uma condição ambígua. Torna-se precioso e intocável, ao mesmo tempo em que perde sua função prática de construção, deslocando-se do campo da utilidade para o domínio do simbólico.

O título do trabalho remete ao ritual de unção presente em tradições pagãs e posteriormente cristãs, no qual substâncias especiais são aplicadas para consagrar pessoas ou objetos. A alquimia, frequentemente associada à transformação de metais, também operava como metáfora de elevação espiritual. Nesse contexto, a obra utiliza a ação simples de cobrir um objeto com ouro para refletir sobre transformação, sacralização e atribuição de valor. Entre ferramenta, relíquia e escultura, o trabalho propõe pensar como um objeto banal pode ser elevado ao estatuto de arte.

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