Felippe Moraes
por Alexandre Sá, 2015
Exposição Individual “Os Elementos”
Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica – Rio de Janeiro
São raros os artistas que atualmente conseguem perceber seu próprio trabalho com tanta destreza e pertinência, conseguindo encadear cada nova proposta dentro de uma trajetória coesa e baseada em questões específicas, sem delas nunca se distanciar. Felippe Moraes é um ótimo exemplo deste tipo de artista que produz de maneira regular e tendo sempre em mente suas preocupações estéticas e filosóficas.
Seu trabalho é em primeira instância, povoado de um quase hermetismo que eventualmente poderia provocar um certo tipo de distanciamento recorrente na arte contemporânea. Por outro lado este pseudo-hermetismo, que talvez também se fundamente através de uma precisão formal absoluta, se desfaz rapidamente a partir do momento em que nos interessamos em mergulhar em suas propostas e em seus jogos de interpretação. Quando isto ocorre, o espectador deixa-se inundar por um conjunto de interrogações e deambulações epistemológicas que, como é possível perceber em grande parte da boa produção do século XX, não optará por trazer resposta alguma, mas sim por, provocar uma névoa levemente risonha que através da conjunção com o trabalho exposto, brinca, ironiza a sua presença e discute o afã de cientificidade que atravessa este tal homem contemporâneo em busca de infinitas soluções para o seu eterno processo de conhecimento//desconhecimento.
O trabalho tem como material semântico a ciência. Suas fórmulas e suas fabulações estão ali. As equações matemáticas, as topologias do terreno (subjetivo e objetivo), a geologia do espaço (entre eu e o tu) e todas as outras possibilidades de compreensão e utilização do afã quantitativo que se estabelece enquanto pesquisa. Contudo, Felippe Moraes faz uso deste material de maneira lúdica, consideravelmente ficcional, como se soubesse da verdade que atravessa tais cálculos e exatamente por isto, optasse assumidamente por desconfiar deles, torcendo-os e aplicando-os já de outra forma, na materialidade refinada dos objetos e proposições; promovendo um tipo de lastro poético que se sustenta pela coragem da sua dúvida, pela certeza inelutável de suas angústias e pela instabilidade de suas formulações plásticas.
Alexandre Sá
2015