Artista-alquimista
por Victor Gorgulho, 2024
Solfejo – Exposição Individual
CAIXA Cultural Brasília
Como uma singular espécie de “artista-alquimista”, o carioca Felippe Moraes (Rio de Janeiro, 1988), utiliza as mais variadas mídias artísticas, meios e recursos materiais em seus trabalhos, nos apresentando um vasto – e sempre coeso – conjunto de obras que reúne desde esculturas em neon a fotografias, assim como vídeos, instalações, esculturas de escalas diversas, performances e além.
Tal dimensão de um “artista-alquimista”, como acima citamos, alude à uma inesperada objetividade e pragmatismo cuja produção de Moraes é imbuída, na confecção de suas peças. Se por um lado, a “alquimia”, certo “misticismo”, crenças em sistemas epistemológicos que fogem às balizas do léxico contemporâneo ocidental, e mais, são todos estes aspectos que o artista elege como campos de interesse em sua própria vida cotidiana.
Reformulo, portanto, o paradoxo: o tal “artista-alquimista” em nada aproveita-se da figura do artista romântico, cujos séculos detrás de si e os outros tantos à nossa espreita, tornam-se rapidamente signo de paralisação e medo, abrindo caminhos para leituras pobres, deterministas e, por vezes, deveras rasas acerca do zeitgeist de nossos tempos.
Moraes opera, contudo, por vias inversas: se o trabalho de arte é um labor, o artista conjuga seu virtuosismo manual (ao passo em que é capaz de desenhar, pintar e executar tantas outras funções com estas) às suas frequentemente afiadas pesquisas teóricas sobre temas que ocupam um amplo espectro não apenas de interesse de Moraes, como de relevância para todos nós que, aqui reunidos, formamos (ainda que à revelia e a negação de alguns muitos, nos dias atuais), um corpo-coletivo, corpo-sociedade, dotado de imaginário coletivo, concordâncias, disparidades, rupturas e alianças.
Ao identificar, usualmente, questões que perpassam de maneira ampla e notoriamente válida, considerável, a experiência humana como um todo, entendemos que o artista busca desde pequenas, triviais e sarcásticas qualquer ente que se encontre vivo no planeta Terra.
Talvez seja aí onde resida boa parte da generosidade do artista de, em diversas de suas obras, convocar o espectador (ou muitos espectadores) a não apenas interagirem ou meramente tocarem suas obras mas, sim, para junto do artista, comandá-las, decifrá-las, erguê-las, investigá-las, utilizá-las como aparatos formais-poéticos-teóricos capazes de nos conduzir ao outro lado de um rio; um rio caudaloso e disperso, difuso, profundo e estranhamente também tão raso, o qual chamamos de era contemporânea.
Victor Gorgulho
2024