Um grito de luz

por Daniel Rangel, 2021

Projeto Samba Exaltação
Ed. Mirante do Vale

Registro do poema “O Quasar” (1982) de Augusto de Campos no Vale do Anhangabaú em São Paulo.

Em 1982, o artista-poeta Augusto de Campos, que recentemente completou noventa anos, expôs seu poema “O Quasar” em um painel luminoso na fachada de um edifício localizado no Vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo. O jornalista Telmo Martino, em tom sarcástico, escreveu a respeito da intervenção afirmando que “finalmente Augusto de Campos havia encontrado seu público: os mendigos e trombadinhas do centro da cidade”. A ironia se tornou uma das críticas preferidas de Augusto, pois escancarou um dos objetivos do grupo concreto que era justamente a de tornar a poesia popular e acessível para todos. A expansão poética para outros suportes foi, e segue sendo, uma das estratégias mais recorrentes utilizadas por artista-poetas que buscam explorar a dimensão verbivocovisual em seus trabalhos. O conceito, apropriado da obra de James Joyce, propõe a união simultânea de aspectos verbais, visuais e sonoros em uma mesma obra. Uma conexão intersemiótica que influenciou diferentes gerações artísticas – neoconcretistas, tropicalistas, conceituais e tribalistas – e que de forma intrínseca se encontra presente no projeto “Samba exaltação”, de Felippe Moraes.

Aproximadamente quarenta anos após, Moraes repetiu inusitadamente a ação do poeta concreto e propôs uma série de intervenções verbivocovisuais na fachada do seu apartamento, no icônico Edifício Mirante do Vale, o mais alto de São Paulo, também localizado no Vale do Anhangabaú. Palavras escritas em néon que reverberam como um grito luminoso para “o olhouvido ouvê”1, questionam o momento atual. Estrofes de músicas carnavalescas que cantam a alegria e celebram a vida chamam a atenção para a morte e a necessidade de repensarmos o cotidiano. Não temos o que comemorar: um ano sem festas, sem natal, sem réveillon, sem carnaval. O calendário parou e o movimento natural foi supostamente interrompido. A possibilidade de estar nas ruas, sem limites e freios, liberando a libertinagem momesca, deu lugar ao refúgio consciente daqueles que ajudam a salvar vidas. Moraes se utiliza das redes sociais para compartilhar a perspectiva de sua obra que integra ao mesmo tempo a cidade e sua casa e interliga o público com o privado.

O letreiro de néon, frio e intenso, recurso artístico recorrente, meio de comunicação das grandes metrópoles, de lojas a hospitais, aqui se torna voz e até mesmo alto-falantes de um gigantesco trio-elétrico que parou. Não se ouviu samba no Rio ou em São Paulo, nem frevo no Recife ou axé em Salvador. O país do carnaval já não é o mesmo, e isso já faz algum tempo. A nação do futuro deu lugar ao local do retrocesso. A pluralidade e o respeito à diversidade, motivos de orgulho de outras décadas, perderam eco em meio aos discursos de ódio que buscam segregar as pessoas. O que vem acontecendo? Será que o movimento natural não foi interrompido, e estamos mesmo diante de uma distopia catastrófica. Talvez, sim. De fato, preocupa a insistência por uma volta à normalidade em meio ao caos sanitário, social, político e planetário que estamos vivendo. Conforme bem destacou Ailton Krenak, “voltar ao normal seria como se converter ao negacionismo e aceitar que a Terra é plana. Que devemos seguir nos devorando.”2 Uma mensagem que deve ser ecoada por todas as vozes e maneiras, inclusive pelos artistas que são faróis e iluminam o futuro. E quem sabe algum dia, “viver será só festejar.”

Daniel Rangel
2021

E viver será só festejar, da série SAMBA EXALTAÇÃO (2021), intervenção urbana em néon de Felippe Moraes
Intervenção “E viver será só festejar” (2021) de Felippe Moraes na janela do Ed. Mirante do Vale durante o projeto Samba Exaltação.

1 Pignatari, Décio. Nova poesia: concreta (manifesto)

2 Ailton Krenak em entrevista ao jornal O Globo, em 06/04/2020. Acessado em 09 /05/2020. https://oglobo.globo.com/cultura/voltar-ao-normal-seria-como-se-converter-negacionismo-aceitar-que-terra-plana-diz-ailton-krenak-24353229.