Agoniza mas não morre
por Ana Roman, 2021
Projeto Samba Exaltação
Ed. Mirante do Vale
Como uma nota de rodapé do skyline na cidade, um neon vermelho anuncia a chegada do carnaval. Em 2021, a festa que antecede a Páscoa em quarenta dias não ocorre no seu principal palco: a rua. Todos aqueles que tem o privilégio da escolha estão recolhidos em suas casas diante de um vírus invisível que ameaça a vida. Não é à toa que o primeiro neon de ‘Samba Exaltação’, projeto de Felippe Moraes, traz as inscrições “Agoniza, mas não morre”.
A frase dá nome a uma canção composta por Nelson Sargento, em 1978, e eternizada pela voz de Beth Carvalho. A canção conta a história da marginalização do samba por sua associação direta com a população negra, e de sua posterior elitização. Ela faz uma crítica à mudança de estrutura instrumental e à roupagem que foi imposta ao gênero pela elite que dele se apropria. Apesar dos percalços, na canção, o samba resiste e sobrevive. E resiste coletivamente.
O carnaval, neste ano de 2021, também resistirá: nas canções que sabemos de cor, em pequenos atos e gestos. Os neons de Moraes são uma espécie de gatilho para acessarmos, no silêncio de canções que nos habitam, recordações de como era estar junto, e projetarmos o nosso futuro. Tais memórias, individuais e coletivas, mobilizadas pela música, podem ainda ser carnavalizadas, mesmo sem o encontro físico. O carnaval resiste pelo cuidado com o outro e por assegurarmos o abraço e a possibilidade de presença compartilhada no amanhã.
Os versos do samba, que ressoam em tom baixo – porém persistente – desde a janela do apartamento de Moraes, localizado na arquitetura brutalista do edifício mais alto da cidade, cantam sobre os tempos difíceis que vivemos e entoam uma possibilidade de saída. Como na bela canção de Sargento, aquilo que nos socorrerá talvez seja a crença no coletivo diante do individualismo e, ao mesmo tempo, a resistência do individual diante da massificação. Moraes aponta, com uma certa melancolia esperançosa, para o tom que podemos seguir.
Ana Roman
2021