
Solfejo, 2024
Exposição Individual
CAIXA Cultural Brasília
Texto curatorial de Victor Gorgulho
Distrito Federal – Brasil










A exposição Solfejo (2024), de Felippe Moraes, apresentada na CAIXA Cultural Brasília entre 10 de abril e 26 de maio de 2024, marca sua primeira individual na cidade e a maior mostra já realizada pelo artista. Reunindo 45 trabalhos produzidos ao longo de 15 anos, a exposição propõe uma imersão nas relações entre som, percepção e experiência, expandindo a ideia de música para além do campo auditivo.
Originalmente apresentada em 2019 em São Paulo, a mostra retorna profundamente transformada. A nova montagem incorpora obras inéditas e revisita trabalhos anteriores sob a luz de acontecimentos recentes, revelando uma inflexão mais urgente e atravessada pelas tensões políticas, sociais e existenciais do presente.
Entre instalações interativas, vídeos, esculturas sonoras e obras luminosas, Solfejo convida o público a perceber fenômenos invisíveis que atravessam o mundo. Trabalhos como Composição Aleatória #2, Harmonices Mundi e Solaris Discotecum criam situações em que o visitante deixa de ser espectador e passa a integrar sistemas de som, movimento e espaço.
Com texto curatorial assinado por Victor Gorgulho, a exposição articula ciência, espiritualidade e sensorialidade em um percurso que ativa tanto o corpo quanto a imaginação. Ao revelar padrões ocultos e tornar sensível aquilo que escapa à percepção imediata, Solfejo se afirma como uma experiência que oscila entre o rigor e o encantamento.
Textos curatoriais
Solfejo – Victor Gorgulho
Como uma singular espécie de “artista-alquimista”, o carioca Felippe Moraes (Rio de Janeiro, 1988), utiliza as mais variadas mídias artísticas, meios e recursos materiais em seus trabalhos, nos apresentando um vasto – e sempre coeso – conjunto de obras que reúne desde esculturas em neon a fotografias, assim como vídeos, instalações, esculturas de escalas diversas, performances e além.
Tal dimensão de um “artista-alquimista”, como acima citamos, alude à uma inesperada objetividade e pragmatismo cuja produção de Moraes é imbuída, na confecção de suas peças. Se por um lado, a “alquimia”, certo “misticismo”, crenças em sistemas epistemológicos que fogem às balizas do léxico contemporâneo ocidental, e mais, são todos estes aspectos que o artista elege como campos de interesse em sua própria vida cotidiana.
Reformulo, portanto, o paradoxo: o tal “artista-alquimista” em nada aproveita-se da figura do artista romântico, cujos séculos detrás de si e os outros tantos à nossa espreita, tornam-se rapidamente signo de paralisação e medo, abrindo caminhos para leituras pobres, deterministas e, por vezes, deveras rasas acerca do zeitgeist de nossos tempos.
Moraes opera, contudo, por vias inversas: se o trabalho de arte é um labor, o artista conjuga seu virtuosismo manual (ao passo em que é capaz de desenhar, pintar e executar tantas outras funções com estas) às suas frequentemente afiadas pesquisas teóricas sobre temas que ocupam um amplo espectro não apenas de interesse de Moraes, como de relevância para todos nós que, aqui reunidos, formamos (ainda que à revelia e a negação de alguns muitos, nos dias atuais), um corpo-coletivo, corpo-sociedade, dotado de imaginário coletivo, concordâncias, disparidades, rupturas e alianças.
Ao identificar, usualmente, questões que perpassam de maneira ampla e notoriamente válida, considerável, a experiência humana como um todo, entendemos que o artista busca desde pequenas, triviais e sarcásticas qualquer ente que se encontre vivo no planeta Terra.
Talvez seja aí onde resida boa parte da generosidade do artista de, em diversas de suas obras, convocar o espectador (ou muitos espectadores) a não apenas interagirem ou meramente tocarem suas obras mas, sim, para junto do artista, comandá-las, decifrá-las, erguê-las, investigá-las, utilizá-las como aparatos formais-poéticos-teóricos capazes de nos conduzir ao outro lado de um rio; um rio caudaloso e disperso, difuso, profundo e estranhamente também tão raso, o qual chamamos de era contemporânea.
Victor Gorgulho
2024
Solfejo – Felippe Moraes
“Solfejo” é uma das raras oportunidades para um artista retornar a uma grande exposição de seu passado para revê-la, ampliá-la e distorcê-la. Cinco anos atrás, em 2019, apresentávamos essa mostra no Centro Cultural FIESP em São Paulo. Hoje, na Caixa Cultural de Brasília ela representa a continuidade de uma pesquisa, já em sua segunda década, imbuída de suas perguntas originais ao mesmo tempo que profundamente impactada pela história recente.
Naquele momento, enquanto artista brasileiro, queer e democrata me sentia compelido a abordar as questões sonoras e musicais propostas aqui. Faltava, contudo, uma chamada ao público para a urgência dos tempos que vivíamos e um aviso sobre a reiteração dos anos de chumbo que se anunciavam. Decidimos então abrir a mostra com o néon “Divino Maravilhoso” (2019), que cita a canção de Caetano e Gil de 1968 e nos conclama: “Atenção para o refrão”. Ao mesmo tempo que uma chamada para o assunto da mostra, a música, era também ela própria um aviso sobre refrões anteriormente já cantados e marchados.
Cinco anos depois, canções luminosas se multiplicaram em uma verborragia elétrica. A mostra foi contaminada pela pandemia de COVID-19 e a sombra do autoritarismo. A música que aqui apresentamos parte do silêncio, das frequências suspensas no espaço, do cosmos e da ordem das esferas superiores. Por outro lado, nos arremessa de volta à realidade trazendo o samba como filosofia brasileira e forma última de sobrevivência e coesão social. O samba que se apresenta como canção, mas é, em essência a coluna vertebral da brasilidade, um modus vivendi, o que nos torna o que somos e o que nos mantém vivos e atentos.
“Solfejo” se afirma como espaço de experiência democrática. Como método, parte do pensamento de um povo que se compreende a partir da música, para um fazer artístico libertário. Ela é um rizoma que atravessa diversas áreas do conhecimento sem hierarquia. Em que a música nos chama ao movimento e às “composições aleatórias”, aos padrões inscritos no céu e às ondas invisíveis no ar, mas, acima de tudo, nos conclama à ação: Canta forte, canta alto!
Felippe Moraes
2024