Composição Aleatória
Balançar o mundo é entrar no movimento de tornar-se mais de um
por Amanda Abi Khalil, 2026
Composição Aleatória – Exposição Individual
MAC Niterói
Balançar exige que o corpo se reconecte com nossas primeiras experiências corporais: ser embalado para dormir por quem cuidava de nós quando éramos bebês. Trata-se de um ritmo fundamental de conexão. O balanço está entre as formas mais precoces de brincadeira por meio das quais muitos de nós entramos em contato com o mundo e descobrimos, muitas vezes de forma inconsciente, que o equilíbrio nunca é inteiramente nosso. Balanços duplos e coletivos colocam outros corpos em jogo.
Composição Aleatória #2 é composta por três gangorras que sustentam doze sinos, abrangendo todo o espectro de notas disponíveis na música ocidental e gerando combinações sempre mutáveis por meio do movimento. As pessoas sentam-se frente a frente enquanto a escultura, que é também instrumento e extensão corporal, responde aos movimentos. Instalada ao ar livre, em um espaço semipúblico, a obra pode até mesmo convocar espécies voadoras e aves para a interação. A cada deslocamento de peso, ouvimos uma nova disposição de sons. O desafio passa a ser encontrar equilíbrio e harmonia em conjunto — uma das grandes questões do nosso tempo. Dois tornam-se três. Três tornam-se coletivo.
Uma linhagem singular da história da arte brasileira habita a obra, desde as proposições participativas de Lygia Clark e Hélio Oiticica até práticas coletivas contemporâneas como Opavivará, nas quais a obra encontra sua realização por meio do uso, do encontro e da ativação coletiva.
Este brinquedo, instrumento e escultura pública nos convida a nos tornarmos tanto músicos quanto brincantes. Na mesma linha de pensamento, espectadores, interagentes e público tornam-se compositores, não apenas no sentido musical do termo, mas também como criadores de outras possibilidades de estar em movimento, em ritmo e, por extensão, de estar no mundo.
Em um tempo marcado por múltiplas crises e pela redução da capacidade de atenção, a obra nos convoca a escutar os corpos uns dos outros e a reconhecer nossa capacidade de expandir o imaginário, prolongando os encontros que ela proporciona. Há algo precioso no universo da primeira infância que este ambiente faz emergir: as notas, o balanço, a brincadeira, a possibilidade da descoberta. A obra convoca esse ser que habita cada um de nós, oferecendo um convite para reaprender a habitar o mundo com renovada curiosidade.
Apresentada pela quarta vez, agora na icônica praça do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Composição Aleatória #2 dialoga com a arquitetura de Oscar Niemeyer, com a baía e com a cidade que a circunda. Suspenso entre o mar e o céu, o museu projeta uma sensação de leveza e movimento; suas curvas desenham um horizonte que parece estar em transformação permanente. A escultura compartilha dessa mesma condição. O som atravessa o espaço aberto, carregado pelo vento, pelos corpos e pela paisagem. Como as espécies marinhas o escutariam? Que notas poderiam surgir se aprendêssemos a ouvir de outra maneira? Uma coreografia se desdobra através da arquitetura arredondada, quase espacial, do museu, transformando o local em um vasto aparelho de ressonância.
O que mais me interessa na obra e na prática de Felippe Moraes é sua insistência no estar-junto em um momento em que o isolamento é cada vez mais apresentado como inevitável. A escultura pede cooperação sem exigir consenso. Ela nos lembra que o ritmo comum emerge da diferença, da negociação e da disposição em permanecermos presentes uns para os outros, revelando o quanto essa coordenação é ao mesmo tempo frágil e essencial.
Por um breve instante, o mundo balança. Nós o sustentamos juntos. Ouvimos a nós mesmos tornando-nos mais de um.
Amanda Abi Khalil
(Traduzido do inglês por Felippe Moraes)