Samba Exaltação, 2021

Intervenção Urbana
Estação da Luz e Biblioteca Mário de Andrade
São Paulo – Brasil

A intervenção urbana Samba da Luz, de Felippe Moraes, ocupa o centro de São Paulo com dois letreiros monumentais em néon instalados na fachada da Biblioteca Mário de Andrade e na Estação da Luz. Realizado em 2021 como parte do Museu de Arte de Rua, o projeto emerge em um contexto de restrições sociais, propondo uma presença luminosa e pública em meio a um período de distanciamento e suspensão das experiências coletivas.

A obra transforma trechos de sambas emblemáticos em signos urbanos de grande escala. Na Biblioteca, o néon alterna entre “Canta forte” e “Canta alto”, evocando a canção de Martinho da Vila. Já na Estação da Luz, a frase “Não deixe o samba morrer” se alterna com “Não deixe o samba acabar”, remetendo ao clássico eternizado por Alcione. Essas inscrições ativam a memória coletiva e reposicionam o samba como linguagem viva no espaço público.

O título articula múltiplos sentidos ao conectar o bairro da Luz, a ideia de iluminação e o conhecimento transmitido pela cultura popular. Ao inscrever essas palavras em locais de intensa circulação, o artista transforma arquitetura e fluxo urbano em suporte para uma mensagem de resistência, cuidado e continuidade.

Entre arte, cidade e espiritualidade, o projeto também se alinha simbolicamente às forças de Exu, entidade associada ao movimento, à comunicação e às encruzilhadas. Nesse sentido, Samba da Luz não apenas ilumina a cidade, mas a reencanta, fazendo do samba uma tecnologia ancestral capaz de atravessar crises e reinventar o cotidiano.

Texto Curatorial

Samba da Luz – Felippe Moraes

No ano do Carnaval ausente, em que as ruas não puderam ser engolidas pelo desejo dos corpos libertos e fantasiados de delírio, ocupamos a cidade com luz e samba, vermelho e silêncio. Tanto pela evidência de sua ausência, ou pela afirmação de sua presença, o projeto Samba da Luz traz o ritmo não apenas como música, mas enquanto saber ancestral. Quando nos vemos sem caminhos, voltamos aos anciãos por orientação, e assim nos dirigimos ao samba com a reverência direcionada a quem nos ensinou a caminhar, dançar e, acima de tudo, habitar e tensionar a precariedade.

Este projeto de intervenções urbanas ocorre simultâneamente na Estação da Luz e na Biblioteca Mário de Andrade. Na primeira, iluminamos o clamor “Não deixe o samba morrer/acabar” que se tornou conhecido na voz de Alcione em 1975. Na segunda, “Canta Forte/Canta Alto”, evocando o refrão de “Canta, canta, minha gente”, lançada por Martinho da Vila em 1974. Diante dos trabalhadores e trabalhadoras, das pessoas excluídas e esquecidas que transitam, habitam e transformam a Cidade, o samba se materializa enquanto voz que emana da rua e que insiste em não ser silenciada.

A melancolia e o luto atravessam cada um de nós prostrados diante da monumentalidade da tragédia. Assim, como forma última de reinventarmos nossas existências, voltamos ao samba enquanto saber que verte dos terreiros e se coloca em movimento no mundo. Buscamos nele a cura simbólica para nossas violentadas subjetividades. Conclamamos, portanto, ao canto, ao furor da existência, à malandragem e ao saber ancestral das encruzilhadas como formas últimas de existir e resistir.

Laroyê, Exu! Salve o Samba!

Felippe Moraes
Junho, 2021

Felippe Moraes
Samba da Luz
, 2025
Vídeo 360º
4’36”