LUZIA, 2019
retro-projetor e papel
Dimensões variáveis
Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (Portugal)

Texto Curatorial de Bernardo de Britto


LUZIA

Luzia é o nome dado à ossada humana mais antiga encontrada na América do Sul. Pertenceu a uma mulher na casa dos vinte anos que viveu na região onde atualmente se encontra o estado Minas Gerais, no sudeste brasileiro, há cerca de 12.500 anos. Em setembro de 2018 um incêndio de proporções assustadoras destruiu a maior parte da coleção do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, onde se encontrava seu esqueleto. A instituição, que acabara de completar 200 anos, vinha há décadas sofrendo com falta de verba e manutenção necessárias para abrigar e conservar a coleção de história natural mais antiga e importante do mundo lusófono. Mais do que uma tragédia anunciada, o incêndio que privou a humanidade de 90% de um acervo que continha registros e estudos de línguas ameríndias já extintas, uma vasta coleção de egiptologia e de espécimes da fauna e flora brasileiras, se apresentou como um crime à memória.

No entanto, Luzia (2018-2019), do artista brasileiro Felippe Moraes, vai além de uma homenagem ao acervo de um museu destruído. Este artefato arqueológico é uma das principais fontes de estudo para se entender a primeira onda de migração populacional para a América do Sul ocorrida há cerca de 16.000 anos. Elevando este nome na parede do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, o artista adiciona milhares de anos de história da população sul-americana à esta instituição. Luzia, que em sua etimologia significa luminosa, está projetada em luz à penumbra de uma das salas da ala de história natural do museu. A luz que projeta seu nome não ilumina somente dados históricos e o espaço físico, mas nos traz, simbolicamente, a ideia de uma mulher como força originaria, que com sua existência desvela a história da população de um continente.

A história da humanidade, escrita maioritariamente por conquistadores, sempre se preocupou em ocultar e desumanizar os conquistados e oprimidos. Mas é preciso entender a urgência de se contar uma história mais antiga. Vivemos em tempos sombrios onde a negação da evolução, da ciência e da história das minorias é incentivada por governos conservadores espalhados pelo mundo. O trabalho de Felippe Moraes vislumbra iluminar Portugal com a força ancestral de Luzia, revelando o valor histórico de uma América do Sul soberana por milhares de anos e livre de qualquer conquista europeia. Um resgate histórico que só se tornou possível através da evolução da ciência.

Nos destroços do museu nacional brasileiro pesquisadores conseguiram resgatar 80% do seu crânio. Luzia não tem interesse em ser apagada, esquecida ou destruída apesar do descaso e de todas as tentativas para que isso aconteça. Ela resistiu mais de 10.000 anos soterrada, a um incêndio devastador e continuará resistindo e iluminando a existência de Marielles, Matheusas, Claudias e Marianas, que persistem e não se cansam de, no feminino, trazer para a humanidade um senso de história, verdade e conhecimento.

Bernardo de Britto
Fevereiro de 2019

Sobre a obra

A instalação Luzia foi apresentada no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra durante a Semana Cultural da universidade. A obra parte de um dos episódios mais marcantes da história recente das instituições científicas brasileiras: o incêndio que atingiu o Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, em setembro de 2018.

O desastre destruiu cerca de noventa por cento do acervo da instituição, considerada uma das mais importantes da América Latina nas áreas de história natural, antropologia e arqueologia. Entre as perdas mais simbólicas estava o crânio de Luzia, identificado como o fóssil de Homo sapiens mais antigo já encontrado no Brasil.

A instalação toma essa figura como ponto de partida para refletir sobre memória científica, patrimônio cultural e as fragilidades das instituições responsáveis por preservar o conhecimento.