Solfejo, 2025

Exposição Individual
CAIXA Cultural Rio de Janeiro
Texto curatorial de Victor Gorgulho
Rio de Janeiro – Brasil

A exposição Solfejo – Felippe Moraes, apresentada na CAIXA Cultural Rio de Janeiro entre 14 de janeiro e 30 de março de 2025, ocupa múltiplos espaços da instituição, incluindo galerias, foyer e o Teatro Caixa Nelson Rodrigues. Com cerca de 50 obras, a mostra se configura como o maior panorama já realizado da produção do artista, reunindo trabalhos desenvolvidos ao longo de 15 anos.

A exposição, originalmente apresentada em 2019, retorna ao Rio profundamente expandida e reelaborada para dialogar diretamente com a cidade natal do artista. A presença do samba, da paisagem urbana e da memória coletiva carioca atravessa a mostra, que articula som, música e cosmologia como formas de compreender o mundo e seus ritmos invisíveis.

Entre instalações interativas, obras luminosas, vídeos e esculturas sonoras, Solfejo propõe experiências que ativam o corpo e a escuta. Trabalhos como Composição Aleatória #2, Harmonices Mundi e Solaris Discotecum criam situações em que o visitante participa da construção sonora, percebendo relações entre movimento, tempo e espaço.

Com texto curatorial assinado por Victor Gorgulho, a exposição tensiona ciência, espiritualidade e cultura popular. Ao atravessar o universo do samba e da música das esferas, Solfejo revela padrões invisíveis que conectam a experiência cotidiana ao cosmos, propondo uma escuta expandida da realidade.

Textos curatoriais

Tudo é perigoso, tudo é divino e (ainda é) maravilhoso – Victor Gorgulho


ATENÇÃO PARA O REFRÃO! Informa-nos, logo na entrada do espaço, uma das esculturas em neon do artista Felippe Moraes (Rio de Janeiro, 1988), como uma espécie de alerta tão político quanto festivo. Referenciando o principal verso, talvez, da composição musical de Caetano Veloso, imortalizada na voz da cantora Gal Costa (1945-2022), o trecho de “Divino Maravilhoso” (1968), funciona como um rico prólogo a uma exposição que referencia o som, a música e a capacidade de resiliência e superação que vem junto desta – especialmente na experiência social brasileira – ao passo em que também nos conduz a esta conclusão através de enigmáticos silêncios, de sons abafados, de ímpetos sonoros não concluídos mas não menos retumbantes e potentes na forma como impactam o corpo daquele que visita a presente exposição.

Em sua primeira individual no Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, no subúrbio carioca, Moraes apresenta uma visão panorâmica de sua produção dos últimos anos, passando pelas já mencionadas esculturas em neon até trabalhos ainda pouco exibidos no circuito da arte contemporânea brasileira – seja na esfera institucional, seja no âmbito das galerias e das feiras. Em seus vídeos, instalações, esculturas sonoras, visuais, fotografias e além, o artista revela uma prática multimídia que, à revelia de pares de sua geração, não busca justificar-se ou explicar-se por vias formais, acadêmicas, oblíquas e pouco acessíveis a maior parte do público que prestigiará sua mostra.

Como uma singular espécie de “artista-alquimista”, Moraes apresenta no corpo de sua obra – em uma completude inconclusa, contínua, uma vez que o artista segue a produzir, incessantemente – uma inesperada objetividade e pragmatismo da qual ela é radicalmente imbuída, contaminada. Se, por um lado, a “alquimia”, ou certo “misticismo”, crenças em sistemas epistemológicos que fogem às balizas do léxico contemporâneo ocidental aparecem nas obras aqui reunidas, são estes aspectos que o artista elege como campos de interesse em sua própria vida cotidiana. Não se trata de um paradoxo, no entanto: o tal “artista-alquimista” em nada aproveita-se da figura do artista romântico, cujos séculos atrás de si o tornam um ser meio paralisado, meio constantemente em estado de alerta e de medo.

Moraes opera, contudo, por vias inversas: se o trabalho de arte é um labor, o artista conjuga seu virtuosismo manual às suas frequentemente afiadas pesquisas conceituais e teóricas sobre temas que ocupam um amplo espectro não apenas de interesse dele, como de relevância para todos nós que, aqui reunidos, formamos (ainda que à revelia de muitos, um corpo-social da nossa Terra Brasilis), um inegável corpo-coletivo, corpo-sociedade, ainda dotado de um imaginário próprio e de inúmeras concordâncias, dissonâncias, disparidades, rupturas e alianças ademais.

À despeito de um desejo de a todos agradar, Moraes evoca o samba da sua cidade de nascença, convida o espectador a uma posição ativa diante de obras em que o som só se torna possível a partir da relação deste com sua obra, reflete tanto eruditamente sobre a experiência humana na mais tenra ideia de sua finitude neste planeta chamado Terra, como convida-nos a bailar em meio à outras possibilidades de encontros siderais. Tão distantes e tão próximos, feito bravamente alcançado por sua produção – ainda que, sempre, de um modo generoso, pouco ostensivo, como qualquer boa realização artística, possivelmente, deve (ou deveria) ser.

Victor Gorgulho
2025

Solfejo – Felippe Moraes


Solfejo é uma ideia. Um recorte de minha pesquisa sobre o som e a música. Compreende inúmeras formas de cantar: muitas delas com as mãos, outras com os olhos, algumas, inclusive, em silêncio. É uma praça onde nos encontramos para realizar composições aleatórias, mas também onde brincam minhas ideias. Os corpos celestes e os fenômenos físicos, o visível e o invisível, a vida e a morte — sentam em roda para fazer samba. Filosofia brasileira. Ontologia carioca.

Enquanto exposição, Solfejo se apresentou pela primeira vez no Centro Cultural FIESP, na Avenida Paulista, em São Paulo. No intenso, e agora longínquo, ano de 2019, ela cantava em meio às grandes narrativas históricas daquele momento. Em 2024, reencarnou na CAIXA Cultural Brasília, transformada e ampliada, acumulando novos trabalhos realizados ao longo dos cinco anos que separam as duas mostras. Hoje, vestida de luz, ela chega à minha cidade.

Nesta edição, Solfejo acontece no solo sagrado entre a Gamboa e a Lapa, a Sapucaí e a Avenida Rio Branco — onde o samba transborda todos os fevereiros. Aqui já fui engolido pelo Cordão da Bola Preta e me rendi aos tambores do Bloco Afro Orunmilá. Já vi Mangueira saudando Cacique e Cacique saudando Mangueira. Aqui canto com meus ancestrais, pois é na música que eles vivem e pulam carnaval. É deste terreiro que emana o pensamento desta mostra. E hoje, aqui ela renasce.

Felippe Moraes
Verão 2025