Proporción, 2018

Exposição Individual
Espacio de Arte Contemporáneo
Curadoria de Fernando Sicco
Montevideu – Uruguai

A exposição Proporción de Felippe Moraes apresenta um conjunto de trabalhos que investigam os modos como medimos e organizamos o mundo. A partir de procedimentos conceituais e proposições matemáticas elementares, a mostra revela que aquilo que entendemos como precisão e ordem é também atravessado por decisões arbitrárias que moldam nossa percepção da realidade.

Com uma linguagem reduzida e direta, os trabalhos operam como estruturas visuais essenciais que tensionam a relação entre o tangível e o intangível. Ao eliminar excessos formais, a exposição propõe um campo de leitura aberto, onde cada obra se apresenta como um dispositivo de pensamento capaz de ser ativado por diferentes sujeitos em distintos contextos.

Inserida em um momento de instabilidade social e política, Proporción desloca a ideia de medida para além do campo técnico. A exposição sugere que mensurar é também um gesto crítico, capaz de revelar as limitações dos sistemas que utilizamos para compreender o mundo e apontar para novas formas de perceber, organizar e imaginar o real.

Textos curatoriais

Proporción – Fernando Sicco


A exposição múltipla PROPORCIÓN, de Felippe Moraes, tem início com a seleção de um projeto para o exterior do edifício na 7ª Convocatória do EAC, uma intervenção com bandeiras que naquele momento se chamava Progressão e havia sido realizada no MAC de Niterói, no Brasil. Posteriormente, Moraes, que já havia participado da exposição A escala humana no EAC em 2015, foi convidado a apresentar no interior do EAC outros trabalhos seus na mesma linha, dando origem ao conjunto de obras que se distribui ao longo do hall central nesta temporada.

Proporción, como título, faz mais justiça ao nível de abstração buscado pelo artista em suas obras, ao mesmo tempo em que se afasta da ideia de direção orientada a um fim, inevitavelmente associada à noção de progresso. Interessa-lhe, de forma simbólica, os gradientes e os sistemas de medição de processos tanto tangíveis quanto intangíveis, os quais, apesar de sua arbitrariedade, determinam em grande medida a forma como nos relacionamos entre nós e com o mundo em que vivemos.

Essa tensão entre os universos matemáticos da geometria e da aritmética, a variável temporal e o devir social e político constitui o eixo a partir do qual as obras de Moraes buscam gerar sentidos.

F. Sicco / EAC

Proporción – Felippe Moraes


O corpo da mostra Proporción é constituído de exercícios visuais sobre procedimentos conceituais relacionados à medição e à quantificação do mundo dos fenômenos, tangíveis e intangíveis. Estes processos, ao mesmo tempo que são corriqueiros e inerentes ao estabelecimento do que entendemos como civilização, são também arbitrários e determinantes sobre a forma como apreendemos o mundo e as relações que se estabelecem nele. Colocamo-nos assim a refletir sobre como as formas de mensurar e observar alteram a leitura e percepção do mundo ao nosso redor.

A escolha por materiais, acabamentos e processos elementares são em si uma proposta da redução do ruido para aproximam o trabalho de um destilamento absoluto, um ímpeto de chegar ao estritamente essencial para veicular as articulaçoes mentais propostas, que em sua natureza quase atômica e fundamental podem hipoteticamente relacionar-se a qualquer sujeito em qualquer tempo, assumindo leituras, propostas e proporções inerentes e referentes ao momento da leitura.

Como é da natureza de qualquer evento, a mostra se dá no seu determinado instante como resultado dos acontecimentos anteriores a ele e na latência do porvir. Em um momento histórico de convulsões sociais, de demandas e revoltas por parte de minorias em confronto com a oposição e repressão de setores dominantes, o ato de mensurar em si torna-se ainda mais político. Coloca-se, assim em cheque a viabilidade das unidades de medida e ferramentas de observação social que desenvolvemos ao longo da história frente ao ineditismo e inerências disruptivas dos eventos contemporâneos. Não só o assunto é questionado, como o vocabulário que o veicula.

Com uma linguagem gráfica e métodos simples, as obras partem de proposições matemáticas elementares e inserem-se no mundo para serem apropriadas por ele e lidas em meio à confusão da atualidade perpétua, assim como na superação utópica dessa realidade em um futuro que está sempre na latência de ser. Elas nada mais são do que esquemas visuais e pequenos processos lógicos, clamando por vetores ordinários que violentamente substituam suas lacunas, apropriando-se delas para articular pensamentos, convulsões e transes teóricos, sociais e políticos do agora e do porvir.

Felippe Moraes