Ovo Cósmico, 2023

Exposição Individual
Verve Galeria
São Paulo – Brasil

A exposição OVO CÓSMICO, de Felippe Moraes, apresentada na Verve Galeria, instaura uma experiência imersiva ao transformar completamente o espaço expositivo em um ambiente suspenso do tempo e da realidade material. Reunindo 16 obras inéditas, todas luminosas, a mostra convida o público a atravessar uma paisagem que evoca a imensidão do universo e a sensação de flutuar entre corpos celestes.

A exposição articula néons, espelhos e imagens em movimento para construir um campo sensorial onde ciência, espiritualidade e inconsciente coletivo se entrelaçam. As obras partem de investigações sobre música das esferas, alquimia e corpos celestes, criando um percurso que desloca a percepção e tensiona os limites entre conhecimento racional e a experiência do sensível.

No centro da mostra, a instalação Solaris Discotecum (2023) organiza o espaço como um sistema orbital, no qual constelações do zodíaco e elementos luminosos se relacionam em movimento contínuo. A presença de materiais como o argônio, associado à formação de estrelas, reforça a dimensão física e simbólica da exposição, aproximando o visitante de uma matéria que remete à origem do cosmos.

Ao assumir também a expografia e o texto curatorial, Felippe Moraes concebe a mostra como uma obra total. OVO CÓSMICO propõe um encontro com questões ancestrais sobre origem, tempo e existência, abrindo um campo de contemplação onde a experiência estética se torna também um exercício de pensamento sobre aquilo que nos excede.

Texto curatorial

Ovo Cósmico – Felippe Moraes


“Tem uns dias que eu acordo
Pensando e querendo saber

De onde vem o nosso impulso
De sondar o espaço (…)

E de pensar que não somos
Os primeiros seres terrestres
Pois nós herdamos uma herança cósmica”

Errare Humanum Est – Jorge Ben Jor, 1976

Quando acometidos do peso acachapante da realidade material, tornamos nossos olhos para o alto e para baixo, para dentro e para fora. Entre os infinitos se dão os instantes de nossas existências. Sob o paradoxo de que nas suas impermanências, reside o acesso ao que é eterno e infinito. É nessa membrana irrisória, quase sem dimensões, que se dão nossas existências.

É atrás do horizonte visível que se esconde o inenarrável, os eventos para os quais nos faltam vocabulários para descrever. Confrontados com a grandiosidade do que nos ultrapassa, é então que nos aproximamos da noção de nossa transitoriedade e da efemeridade material.

Há perguntas e sussurros que nascem com todos nós. Podem ser escutados ou ignorados. Endereçados ou não, nos acompanham como nossas sombras. Assim o foi com nossos antepassados e seguirá sendo no futuro, até que nós mesmos nos tornemos ancestrais. Muitos de nós se permitem imergir nessas águas profundas apenas no instante da morte, da passagem. Na ilusão materialista, privam-se do gozo cósmico de sentirem-se tal qual são: instantes fugidios na eternidade. Ora perene, ora vivendo por um segundo. Ora minúsculos, ora colossais.

OVO CÓSMICO se instaura como experiência estética, simbólica e espiritual. O microcosmo de uma jornada iniciática que propõe, na observação de modelos celestiais, uma mirada em direção ao cosmos interior. Propõe-se como contemplação da infinitude e das questões sem respostas. Com elas aprendemos a flutuar no mar das incertezas como própria condição de seres eternos inseridos em uma sucessão de pequenas e repetitivas vivências finitas.

Imaginemos o universo como curva. Como um tempo circular, que permite um eterno retorno, uma reiteração de ciclos. De idas, que acabam por se tornar vindas. Se me prostro diante do vazio infinito, em dado momento veria minha própria nuca: sua imagem a viajar pela curva infinita até chegar aos meus olhos. O lugar imediatamente anterior àquele de onde eu mesmo observo. Assim se propõe OVO CÓSMICO. Ao contemplar o eterno negrume da noite, chegaríamos ao instante de inflexão da criação. Do momento primeiro a partir do qual se deu a ordem visível e invisível dos ciclos que nos rodeiam. O ponto de partida. A primeira luz. Quando do primeiro Verbo. Quando da colina primordial de onde tudo emana.

O telescópio espacial James Webb, lançado em 2021, é uma das maiores empreitadas científicas da história da humanidade e foi projetado para permitir a observação do espaço mais profundo, em direção ao ponto do evento do Big Bang. Entendendo que, quanto mais profundamente se observa o espaço, mais no passado estamos, o objetivo seria revelar fotografias dos primeiros instantes do Universo. Os milésimos de segundos ancestrais. O primeiro sopro do infinito. O parto do cosmos.

OVO CÓSMICO se propõe de maneira análoga. Como um dispositivo estético e poético que nos permite observar as profundezas de nossas origens simbólicas e ontológicas. Por meio de experiências visuais, cinéticas e sensoriais, promover uma mirada para nossos modelos celestiais e mitológicos a fim de vermos o nosso próprio instante de concepção.

Há em OVO CÓSMICO o estabelecimento de um ambiente que evoca e invoca símbolos, narrativas e mitologias repetidas reiteradamente por diversas tradições. Nele nos colocamos a fim de fazer as antigas perguntas, mas cuja forma, teor e conteúdo nos esquecemos em uma civilização que se esconde na nitidez insípida do saber instrumentalizado. Não há aqui uma fuga da ciência, mas uma tentativa de nos arremessar novamente no mistério, na suspensão ontológica. Lugar de onde ela mesma emana.

Em Evento Celestial (2020-2023) vemos a imagem de uma mão segurando uma lente em frente ao sol. Ela se mexe e direciona um feixe de luz para o observador. Ao ser montada em backlight, a imagem confunde os limites entre fotografia e cinema, luz gráfica e luz emitida. Há na obra um certo rito ou ato magístico de manipular, alterar e dirigir a luz solar. No limite entre um prosaico engenho científico e um ato de magia luminosa. Para os alquimistas o ouro é uma sombra do Sol, tal qual o Sol é uma sombra do Um. Sendo assim, uma manipulação da força solar, é também um vislumbre, um sopro da presença original que a tudo permeia.

A série Solaris Discotecum (2023), parte da ideia de harmonia e movimentação do cosmos como uma premissa musical. Nela compreendemos o céu como um ambiente em que se dança, em que a luz ilumina os corpos celestes e em que o movimento é uno com a música. Portanto, uma discoteca solar. A pista de dança como premissa para a experiência dos ciclos celestes.

Ao centro, Orbis Solaris, da série Solaris Discotecum (2023). Seus inúmeros espelhos refletem luzes superiores que iluminam o modelo astronômico e astrológico instaurado no ambiente, fazendo as vezes do astro rei. Ao redor de seu eixo circula uma minúscula e quase invisível esfera de chumbo: uma modesta representação de 5mm do Planeta Terra proporcional à escala do Sol com 50cm de diâmetro. Eternamente vagando em círculos sob a luz das estrelas. Ciclo após ciclo passando por seu processo transmutativo até tornar-se áurea em seu momento vindouro de iluminação.

Desde a civilização babilônica, utilizamos símbolos muito similares para representarmos as constelações do anel zodiacal. Esses 12 grupos de estrelas estão em um plano pelo qual a Terra passa todos os anos, um mês em cada um deles. Em diversas tradições não-ocidentais também encontramos interesses cronológicos e mitológicos sobre estas mesmas estrelas. Com imagens que evocam suas próprias culturas mas que, ao mesmo tempo, se inserem em uma certa universalidade e onipresença desses corpos celestiais sendo observados por diversos grupamentos humanos em diferentes tempos históricos. É intrigante e fascinante a repetição dessas formas, que permitem variações entre si, mas que dizem respeito razoavelmente aos mesmos conjuntos estelares. Uma espécie de pintura rupestre desenhada geração após geração nas profundezas do firmamento.

Assim, Solaris Discotecum (2023) apresenta em néon uma série de abstrações geométricas das conexões possíveis entre as estrelas relacionadas a cada constelação do zodíaco. Cada mapa apresenta sua própria interpretação sobre como cada estrela se conecta para formar um desenho que viria a ser interpretado como um caranguejo ou uma balança, um leão ou um caprino. Foram consultadas dezenas de cartografias a fim de encontrar as semelhanças e diferenças entre elas. Alguma decisões visuais e compositivas, outras da ordem da tradução e adaptação de uma para outra. Mas em todos, a inquietação de entender como tantos povos inferiram imagens tão complexas a partir de abstrações simples de linhas e pontos no céu.

Cada um dos luminosos é feito de tubos de vidro preenchidos por Argônio, um gás nobre produzido no centro de estrelas massivas de nossa galáxia. Assim, cada uma das obras da série é feita do próprio material emanado pelas estrelas. A representação e o representado feitos da mesma matéria.

Ao fim da mostra e do processo transmutativo que ela propõe, somos deparados com OROBORO (2023). Nele evocamos essa palavra que nomeia o símbolo alquímico da cobra ou do dragão que come a própria cauda em uma potente alegoria do eterno retorno. O termo é um palíndromo, podendo ser lido em ambos as direções. Ao ser escrito como semicírculo sobre um espelho, seu reflexo o transforma em um poema-anel. Uma palavra circular que pode ser lida eternamente a partir de qualquer ponto. Ao fim do grandioso ciclo de depuração, a serpente mística nos confronta com sua inescapável circularidade e nos arremessa novamente no início.

Dessa maneira, OVO CÓSMICO é tanto uma pista de dança celestial, quanto um gabinete alquímico, um modelo astronômico, ao mesmo tempo que um templo astrológico. É tanto exposição quanto caminho iniciático. Uma pletora de sedutores objetos luminosos quanto uma coleção de artefatos mágicos. Tal qual nossas múltiplas vidas na roda do mundo, pode ser arrebatadora quanto esvaziadamente materialista. O que está acima é como que está abaixo, o que está abaixo é como que está acima. Assim, fazem-se os milagres de uma coisa só.

Felippe Moraes
Novembro de 2023