


Felippe Moraes
Madeira quando morre canta, 2025 da série Samba Exaltação
Piano de cauda, néon intermitente, cigarra morta e redoma de vidro
Dimensões variáveis
Madeira quando morre canta (2025) , de Felippe Moraes, é uma instalação que articula som, matéria e linguagem para investigar a relação entre música, morte e transformação. No interior da cauda de um piano, um néon intermitente alterna continuamente entre as palavras “MADEIRA QUANDO MORRE” e “CANTA”. Sobre o instrumento repousa uma cigarra morta protegida por uma redoma de vidro, criando um campo silencioso de ressonâncias simbólicas entre o objeto musical e o pequeno corpo do inseto.
A obra faz referência direta à canção Minha Missão (1981), composta por João Nogueira e Paulo César Pinheiro, na qual se canta: “Que a cigarra quando canta morre / E a madeira quando morre canta”. O verso estabelece uma inversão poética entre dois destinos sonoros: o da cigarra, que encontra na música o instante final de sua existência, e o da madeira, que após morrer transforma-se em instrumento capaz de produzir música.
No piano utilizado na instalação, a madeira — matéria outrora viva — torna-se corpo ressonante. As cordas tensionadas vibram e propagam o som dentro de uma estrutura construída a partir de uma árvore que foi cortada e transformada em instrumento musical. Assim, a morte da madeira é convertida em possibilidade de música.
Felippe Moraes explora esse paradoxo material. A madeira deixa de crescer e de existir como organismo, mas passa a participar de um novo ciclo de vida simbólica através do som. O piano torna-se então uma espécie de corpo acústico que continua a cantar mesmo depois da morte da matéria que o originou.
Nesse sentido, a obra propõe uma reflexão sobre transformação e continuidade. A morte não aparece apenas como término, mas como passagem entre diferentes formas de existência e de expressão.