Trienal FRESTAS, 2014

Exposição Coletiva
SESC Sorocaba
Curadoria de Josué Mattos
Sorocaba – Brasil

Na Trienal FRESTAS em 2014, com curadoria de Josué Mattos, Felippe Moraes apresenta as obras Verbo (2009–10) e O Peso do Verbo (2010–14) como um díptico processual que se desenrola entre gesto, tempo e matéria. I

Em Verbo, o artista realiza, ao longo de sete meses, uma operação contínua e exaustiva: a retirada manual de todas as ocorrências da palavra “Deus” de uma Bíblia católica. O processo, conduzido como uma peregrinação sem prazo definido, implica atenção obsessiva às variações tipográficas, à catalogação minuciosa e à aceitação do erro como parte constitutiva da experiência. Cada palavra recortada é reorganizada segundo suas diferenças gráficas, enquanto uma página final em branco abriga simbolicamente aquilo que escapou ao olhar, instaurando a presença do invisível dentro do sistema.

Já em O Peso do Verbo, o conjunto dessas palavras extraídas é submetido a um gesto de mensuração: seu peso total, 15 gramas, torna-se a unidade central da obra. Esse valor é então redistribuído em 72 recipientes de vidro contendo materiais condutores de eletricidade, em alusão aos 72 nomes de Deus na tradição mística judaica. A palavra, antes linguagem, torna-se matéria; a matéria, por sua vez, torna-se potencial de energia. O trabalho evoca um laboratório alquímico onde o verbo é destilado, materializado e reconfigurado como força latente.

Texto curatorial

Verbo (2009-10) e O Peso do Verbo (2010-14)

Muitos são os nomes utilizados para referir-se ao divino no cristianismo, porém, nenhum deles é o nome próprio de Deus – de origem latina, “Deus” significa “divindade”. Designado por seus adjetivos, “Deus” também é o Altíssimo, a Verdade, o Verbo, etc. Ao subtrair “Deus” em Verbo, Felippe Moraes empenha-se em uma tarefa Sísifica: compreendê-lo pelo que se traduz Dele aos homens, seus adjetivos, nomes, a própria criação. No entanto, o peso de 5.101 “Deus” é apenas 15g, medida ínfima para entender o Infinito.

A transmutação de palavra em matéria em O Peso do Verbo, nos recorda um gabinete de alquimia. Os 72 potes de vidro, cada qual com 15g de materiais condutores de eletricidade, equivalem a 72 nomes de Deus segundo o misticismo judaico. Capaz de gerar luz e proporcionar movimento, a eletricidade é uma existência invisível que se aloja como “alma” na matéria capaz de conduzi-la.

O sal sobre a balança é um elemento central, tanto na alquimia quanto na religião: capaz de ligar corpo e alma na alquimia, recomenda-se ao fiel que seja “Sal na terra” no cristianismo. Traduzido em predicado (a criação), temos então, Deus como sujeito. Porém, uma falência ainda se anuncia: como compreender o que não se dá à compreensão, mas ao ato de fé? Ainda que sujeito e predicado se confundam, o verbo permanecerá sendo.

Isabella Rjeille
2014